A vida sem lactose

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Este é o meu primeiro café com leite de arroz e avelãs. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

Demorei um pouco para dar conta de escrever este texto, mas achei que tinha de fazê-lo. Afinal, são sete anos desde que comecei a escrever sobre comida, aqui mesmo neste blog. Acontece que, num dia bem gelado de julho, fiz um teste de tolerância à lactose e passei mal. Bem mal. Quem acompanha meu trabalho sabe que, desde sempre, tive problemas com o sistema digestório. Uma gastrite aqui, uma colite ali, um diagnóstico de síndrome do cólon irritável acolá. E tudo, claro, ficava na conta do stress. “Você trabalha demais.” “Você é muito estressada.” “Você precisa relaxar”. Bom, parte disso é verdade: eu preciso mesmo descansar, ter mais tempo para me exercitar, viajar nas férias, desligar.

Mas, não se pode culpar o stress por tudo porque, como acabei de descobrir, eu sou intolerante. Ao leite e a todos os seus derivados. Do tipo 100% intolerante. E talvez isso seja para sempre (se for genético) ou, com sorte e tratamento e sucesso, talvez isso seja um pouquinho reversível (se for a intolerância secundária, aquela que se desenvolve com a idade e/ou devido a problemas gastrointestinais).

Ainda não sei a qual dos tipos pertenço, mas independentemente disso, a verdade é uma só: tenho que tirar leite, manteiga e queijos do cardápio até segunda ordem. Porque, segundo meu médico, isso é, muito provavelmente, a causa da minha aflição que já dura mais de uma década. Ou seja: nas palavras da minha nutricionista, eu passei a vida toda “tirando a casquinha da ferida”. E tomando remédio, e tomando vitamina, e mudando a dieta, etc. E passando mal, com crises esporádicas bem graves, seguidas de períodos de melhora breve. Daí as pessoas me perguntam: “ah, mas você passou a vida comendo queijo e tomando leite e não sentia nada?”. Não é assim, né. Claro que não. O leite eu rejeitei desde os meus primeiros dias de vida (inclusive o da mamãe), e assim foi por toda a minha infância – até relatei em meu livro, de maneira bem humorada, que eu jogava pela janela o café com leite que minha mãe preparava para mim, todas as manhãs. Parei de tomar leite puro há anos, pois me enjoava. Parei de tomar iogurte pelo mesmo motivo. Queijos, alguns caíam bem, outros não. E assim fui levando a vida até o exame de sangue que me mostrou, cientificamente e empiricamente (como doía minha barriga, JESUIS), que eu era (sempre fui, talvez) intolerante à lactose.

Bom. O que isso tudo tem a ver com o Guloseima, o leitor atento pergunta. Tudo. Tem a ver que eu passei os sete anos mais recentes da minha vida inteiramente dedicados à gastronomia, provando tudo o que visse pela frente, sem medo de ser feliz. Estudando, cozinhando, provando. Aprendi a cozinhar, a degustar, a escolher os melhores ingredientes. A usar a técnica clássica francesa para preparar os mais diferentes tipos de pratos. Frequentei feiras, eventos e toda sorte de compromissos ligados à gastronomia. E fui bem feliz. Ah, como eu me orgulhava de chegar ao restaurante e, diante da pergunta do maître “alguém tem alguma restrição?”, me gabar: “Não, estou nas mãos do chef, ele pode mandar o que preferir”. Pois é, these days are over. Acabou. C’est fini. Já era.

Ao pegar o resultado na internet, chorei. Era um domingo à noite. Mesmo consultando apenas o dr. Google (chato, eu sei), já sabia do diagnóstico. Marquei médico. Passei semanas chorando. Marquei nutricionista. Continuei chorando. Mas, finalmente, aceitei. E, se for para sempre, que seja: farei tudo o que estiver ao meu alcance para ser feliz. Por enquanto, seguirei trabalhando como jornalista de gastronomia, seguirei dando aulas, que são bem tranquilas para mim nesse quesito. Mas as degustações, por enquanto, estão vetadas – salvo aquelas que sejam lactose free.

Quando relato minha nova condição para as pessoas, muitas reviram os olhos, me acusando intimamente de frescura. Pois é, amigos, não é frescura. Ainda mais para uma pessoa completamente apaixonada por gastronomia, que fala, pensa e respira o assunto 24 horas por dia; que ganha a vida com isso. Não é frescura, mas também não é o fim do mundo – certamente há coisas piores por aí. Mas é fato que, mais uma vez, vou ter que me reinventar. E isso pode ser bom, quem sabe?

Por enquanto, eu vou me adaptando, bem devagarinho, pouco a pouco, até chegarem meus remedinhos, minhas enzimas lactase, meus suplementos, que vão me permitir testar o quão longe vai essa intolerância. De toda forma, adianto: você, leitor, vai ouvir falar muito ainda desse assunto por aqui. Por enquanto, o que posso dizer é: estou testando TODOS os produtos possíveis lactose free, especialmente chocolates. Ainda não achei nada muito satisfatório. Mas escorre uma lagriminha de alegria quando pego um chocolate amargo nas mãos e leio, escrita naquelas letrinhas minúsculas, a frase “Sem Lactose”. Deus abençoe a ciência.

* Em tempo: a lactose (com “O”) é o açúcar do leite, quebrada com a ajuda da enzima lactase (com “A”); aparentemente, essa enzima e eu não nos damos muito bem.

Guloseima é um blog de gastronomia, receitas e viagens mantido no ar desde abril de 2006 pela jornalista Luciana Mastrorosa, especializada em gastronomia e culinária.

Luciana é autora do livro Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da manhã. Trabalhou como editora nas principais publicações de gastronomia no país. Contribui atualmente com a revista Casa e Comida e com o site UOL Comidas e Bebidas.

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