Guloseima: 9 anos no ar

Guloseima: 9 anos no ar

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A minha versão do Abaporu: celebrando a vida com vinho, boa comida, ótima companhia. Foto: Guloseima.net

 

“Seja verdadeiro”. Ou melhor, seja verdadeira. Fiquei matutando essas palavras esta semana, pensando nos novos rumos aqui do Guloseima e da minha própria vida. Pois é, eis que o Guloseima acaba de completar 9 anos. Foi logo agora, em abril. Quase um mocinho, já.

Muitas águas rolaram de lá para cá, muita coisa boa aconteceu. Sem pressa, com pressa. Assim, tudo ao mesmo tempo, como sempre fui, como ainda sou. O Guloseima nasceu no UOL Blog, em abril de 2006. Integrou o primeiro coletivo de blogs, o Interney, já extinto. Foi parceiro do iG. Migrou de novo, dessa vez para o falecido Blogs Abril. E, em seguida, ganhou casa própria e endereço novo: o Guloseima.net, onde permanece até hoje.

Agora, aos 9 anos, o Guloseima ficou ainda melhor: tem um template novinho em folha, adaptado por uma dupla pra lá de talentosa (Lanika.net + Carolina Y); traz fotos maiores e receitas bem explicadas, para você cozinhar sem medo. O conteúdo antigo permanece, para a gente lembrar do que passou, dos erros e acertos, e tentar fazer sempre melhor.

Mas temos novas seções fixas: Receitas, Restaurantes, Vinhos e Bebidas, Viagens, Novidades. Traremos sempre notícias fresquinhas do mundo maravilhoso da gastronomia, com resenhas de restaurantes, dicas de produtos, relatos saborosos de viagens e, principalmente, receitas. Minhas e de chefs queridos, que fazem a diferença para trazer mais alma para a nossa cozinha.

Porque cozinhar, assim como escrever, exige um bocado de técnica – “90% transpiração”, é o que dizem. Mas asseguro que os “10% de inspiração” são fundamentais para dar o gosto de comer e de ler.

Por isso, o “seja verdadeira”, lá do comecinho deste texto. É meu mantra para tudo o que faço. E, com o Guloseima, não poderia ser diferente. Nosso mote não poderia ser mais verdadeiro, pois: “Comida é coisa séria”. Aqui em casa, tenho certeza de que é coisa seriíssima. E, na sua casa, também.

Aos amigos e leitores antigos, obrigada pelo carinho e por terem permanecido neste espaço, mesmo quando ele estava escondidinho. Aos leitores novos, meus cumprimentos e meu desejo de boas-vindas. Voltem sempre!

Que delícia estar em casa.

 

Cozinha e letras

Cozinha e letras

Cozinhar é preciso, viver também é preciso. Com intensidade, de preferência, e coração aberto.

Sou tão apaixonada por literatura quanto pela cozinha, mas as paixões se alternam vez por outra, de modos que hoje, por exemplo, cozinho mais do que leio. Mas não esqueço dos meus poetas, nunca. Drummond, Quintana, Sylvia Plath, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Cecília Meireles. Damas e cavalheiros, todos sagrados para mim.

Quando os meus escritores queridos misturam comida e poesia, é a glória. Neruda fez uma “ode à alcachofra” e uma “ode à ameixa”, Isabel Allende escreveu um livro inteiro dedicado à comida afrodisíaca, com belíssimas citações de outros autores. Quintana escreveu um minipoema chamado “Gostosuras”, delicioso até no nome:

“Tua saudade tem gosto de amora.
Teu beijo tem gosto de pitanga.”

Gosto muito também da M.F.K. Fisher, que sempre escreveu lindamente sobre o ato de comer, e de cozinhar. Já citei um trecho do livro dela, Como cozinhar um lobo, aqui. Esse trecho foi retirado do capítulo “Como beber à saúde do lobo”.

Outra parte do texto que adoro é do capítulo “Como seduzir o lobo”. Sempre brinco com minhas amigas que cozinhar é um ato de amor e amizade, mas também pode ser um ato de conquista e sedução. E a regra vale, é claro, para homens e mulheres. Irresistível é a pessoa que sabe cozinhar, e o faz com maestria, só para agradar o seu mais-querido. Para mim, pelo menos, é!

Mas é um fato que cozinhar exige esforço físico e, não raro, o cozinheiro fica todo amarfanhado no processo. Não é qualquer rapaz, ou garota, que consegue enxergar beleza por trás do avental respingado do(a) chef. Por isso adoro este texto da Fisher:

“Façamos o elogio, por bem ou por mal, do lobo em forma humana ou, de outro modo, quem pode, com a cara franca e sem franzir o focinho, cortejar uma cozinheira desgrenhada? Seu focinho, franzido ou liso, não deve ter nem um pouco de juízo para ignorar os cachos dela, saturados de perfumes da frigideira. Sua assim chamada cara, franca ou torta como a de um lobo, não deve ter olhos ou ser caridosa demais, para evitar pelo menos uma olhada cruel para o seu nariz brilhoso e seus lábios mordidos e para os restos gretados da manicure da semana passada. Em outras palavras, qualquer lobo normal seria tolo se avaliasse uma cozinheira desgrenhada por sua aparência, uma vez que o próprio fato de estar desgrenhada deveria provar para ele a natureza devassa dela.”

E o mais divertido: ela ensina às cozinheiras a terem sempre um espelho na cozinha, talvez também um batom e um pó compacto, para dar aquela conferida básica no visual antes de seus convidados entrarem na cozinha. Ainda não segui o truque do espelho, mas achei prático e muito útil. E nunca falta um batonzinho sempre à mão. ;)

Para terminar o post de cozinha e letras, deixo com vocês uma parte do poema “Devorando o mundo”, de James Tipton. Achei o original, em inglês, para quem quiser ler até o fim.

Esta versão aí de baixo foi publicada, traduzida, no livro Afrodite, da Isabel Allende. Acho muito apropriado para o tema de hoje. Cozinhar é também devoção, entrega e amor.

Devorando o mundo

“Nasci com a boca aberta…
entrando neste mundo suculento
de pêssegos e limões e sol maduro
e esta rosada e secreta carne de mulher;
este mundo onde a ceia está
no hálito do deserto sutil
nas espécies do mar distante
que flutuam no sonho tarde da noite.

Nasci em alguma parte entre
o cérebro e a romã
saboreando as texturas deliciosas
de cabelo e mãos e olhos,
nasci do cozido do coração,
do leito infinito, para caminhar
sobre esta terra infinita.

Quero alimentar-te com as flores de gelo
desta janela de inverno,
dos aromas de muitas sopas,
do perfume de velas sagradas
que por esta casa de cedro me persegue.
Quero alimentar-te com a lavanda
que se desprende de certos poemas,
e da canela de maçãs assando,
e do prazer simples que vemos
no céu quando nos apaixonamos.

Quero alimentar-te com a terra acre
onde colhi alhos,
quero alimentar-te de memórias
surgindo dos troncos de álamo
quando os parto
e da fumaça de pinhões
que se junta em torno da casa em uma noite quieta,
e dos crisântemos na porta da cozinha (…)”

Um limoeiro para lembranças doces

Um limoeiro para lembranças doces

Meu apartamento não tem campainha. Como as duas cachorrinhas latem para avisar quando algo está diferente na porta, nunca me preocupei em instalá-la. Apartamento pequeno, com porteiro, a gente sempre sabe o que se passa.

Vai daí que acordei atrasada e lembrei que havia marcado com meu pai. A porta da sala estava trancada, de modo que as cachorras não poderiam ouvir o que se passava lá fora. Sobressaltada, levantei correndo e dei de cara com meu pai esperando atrás da porta de entrada. O porteiro não me avisou que ele já tinha chegado… Sexto sentido, eu? ;)

E aí a sexta-feira, primeiro dia de outono, começou desse jeito, meio maluca, e faltando água em casa, ainda por cima. Irritada, resolvi ler meus blogs favoritos, como o Come-se, da Neide Rigo. E foi aí que eu lembrei do limoeiro da minha rua antiga.

Não conheço a Neide pessoalmente, mas gosto daquilo que ela mostra no blog. As conversas de casa e boa comida, de refeições simples e festivas com amigos, as plantas e ervas e árvores no quintal.

Puxa, como eu adoro quintais! Vi as fotos, e pensei imediatamente na casa em que nasci, no bairro da Saúde. Era pequena, mas tinha quintal. E um pequeno jardim na frente, onde minha mãe tinha uma roseira mirrada, e muito hortelã e poejo. E os vasos, diversos, espalhados pela casa toda, e até uma parreira – paixão da minha mãe – e um pé de chuchu. Eu nunca gostei de chuchu, mas o pé era bonito que só.

Na minha rua, não tinha prédios. Quer dizer, tinha só um, o único do bairro todo, bem no alto da ladeira (e era uma ladeira MUITO íngreme, acredite). Hoje tem dezenas de outros prédios por lá, mas eles não fazem parte da minha memória.

A roseira da casa vizinha, sim. O limoeiro da outra vizinha, também. O limoeiro que dá título a este post, e que me trouxe uma leve melancolia hoje.

No meio da tarde, entre um papo e outro de comadres, na rua, na porta de casa, eu arrancava uma folhinha do limoeiro para sentir seu cheiro bom de limpeza. Assim que eu descobri como identificar um pé de limão, com seus espinhos, com as folhinhas lustrosas.

Essas lembranças todas começaram a se instalar levemente em mim, e de repente me pus a sonhar com uma casa com quintal. Parece loucura, nesta cidade de São Paulo grande que só Deus, megalópole, de trânsito infernal, de chuvas pesadas que transformam os bairros em puro caos. Será que ainda existe aqui uma casa pequena, de paredes caiadas, com quintal, para mim?

Deve existir, mas tudo tem seu preço. Por enquanto, guardo este sonho bem vivo e trato de cuidar do meu tomilho e da minha cebolinha, que sobrevivem arduamente na apertada área de serviço. E da minha samambaia, e da espada-de-são-jorge, que me acompanha desde minha primeira casa.

Guerreira, ela. Eu também.

Por que escrever um blog de comida?

Por que escrever um blog de comida?

Engraçado como a vida dá voltas. Comecei a escrever este texto na metade de janeiro deste ano, pensando que, em abril, o Guloseima vai fazer 3 anos de vida. Não podia prever que, em poucos dias, minha vida mudaria completamente.

Tenho pensado, vivido e respirado blogs há algum tempo, desde o dia em que ouvi a palavra “blog” pela primeira vez, nos idos de 2002, quando criei meu primeiro exemplar, o Chá Dançante. O Chá era uma mistura de textos, impressões, amores e chateações variadas, e morreu em 2004, quando parei de atualizá-lo.

Em abril de 2006, às vésperas de fazer uma viagem a Paris, em lua-de-mel, decidi que queria ter novamente um blog, mas agora com um novo enfoque: a gastronomia. Foi assim que surgiu o Guloseima em sua primeira versão,  no UOL, ainda tímido, mas já bem-disposto. Algum tempo depois, fui convidada a participar do portal Interney, onde fiquei até setembro do ano passado, quando decidi migrar para cá, porque era gerente de produto dos Blogs Abril.

Mas, como eu disse lá no começo, a vida dá voltas, e agora eu não gerencio mais os Blogs Abril, e estou redescobrindo o prazer puro e simples de escrever um blog, o meu blog querido de comidas e receitas. E estou gostando tanto disso que meus planos agora envolvem escrever sobre gastronomia, culinária e afins. Vamos ver onde isso vai dar…

E por quê? Porque eu adoro cozinhar, eu adoro escrever, e acho justo comigo mesma treinar essas habilidades e repartir com os meus leitores queridos.

Às vezes a vida traz coisas que você não quer, como sair de um emprego querido. Porém, nesses momentos de incerteza, instabilidade e crise, é que podem nascer e florescer nossas verdadeiras vocações. É isso o que eu busco agora: mergulhar cada vez mais no universo da gastronomia, testar sempre coisas novas, sabores, cores, cheiros, receitas. Não há limite para a criatividade humana, ainda bem. Não há mal que dure eternamente. Ainda bem.

É com esse espírito que eu retomo minhas escritas diárias (ou quase) aqui no Guloseima, que sempre me trouxe tanto amor, tantas oportunidades boas, tantos momentos felizes.

Como naquela música da Violeta Parra, agradeço à vida, por ter me dado tanto até agora. E peço que os deuses sejam gentis comigo, e me permitam encontrar um caminho, o meu caminho.

“Gracias a la vida, que me ha dado tanto.”

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