Natal e vinho

Natal e vinho

Os pratos da ceia natalina harmonizados com vinhos. Mais

A vida se adapta

A vida se adapta

A gente caminha, aprende coisas novas sempre e o que fica disso é que a vida se adapta. Para melhor! Boas novas da nutricionista: com carinho, olho na dieta e uso da enzima lactase, é possível viver uma vida absolutamente normal – podendo, inclusive, voltar a consumir produtos com lactose, em pequenas quantidades. É nisso que estou focando, visualizando.

Hoje, o que busco como mais importante é qualidade de vida, em todos os aspectos. Comprar marcas nas quais confio, produtos com os quais me identifico, valorizar o trabalho de quem se esforça para, todos os dias, manter as bancas e prateleiras de feiras e mercados abastecidos com ingredientes de qualidade.

O mais divertido desse meu novo processo é que, aberta uma porta da percepção, outras se abrem também. E a gente nota que o mundo é muito mais amplo, vasto e menos restritivo do que imaginamos. Filósofa, eu? De forma nenhuma. Apenas aprendendo a valorizar as coisas pequenas da vida, boas conversas, uma paisagem bonita, a preciosa saúde.

Continuo de olho nos produtos sem lactose, mas parei de ser obsessiva quanto a isso. Simplesmente, provo e vejo se me adapto ou não. Para minha surpresa, alguns produtos com adoçantes têm ótimo sabor – só não abuso, por não ser o meu costume consumir adoçantes artificiais. É o caso dos chocolates que mencionei no post anterior. Todos têm paladar caprichado, então, no meu caso, é só não abusar. Em termos de chocolate, ainda prefiro os bem amargos, com ou sem castanhas, dos mais fáceis de encontrar aos mais cheios de requintes. Com um pouco de lactase para ajudar, a vida segue tranquila – eles só contêm traços de lactose, e isso já é um facilitador natural.

E com isso a cozinha também se amplia, dá gosto cozinhar sem traumas, apenas pela experiência, pela vontade de fazer algo diferente, quem sabe que ajude a melhorar a vida de alguém depois. Estou nesta fase agora: feliz por conseguir me adaptar, pouco a pouco, a esta limitação da IL que estou torcendo (e lutando para) ser passageira. :) Enquanto isso, os testes na cozinha continuam, a casa se aquece, o coração volta a ter esperança. Que os bons ventos soprem, todos os dias, para mim e para você.

PS: com a Primavera chegando, a vontade de cozinhar fica ainda maior! Qual é o ingrediente ou o marco que te lembra esta época do ano? O meu são os ipês. Sair na rua e ver aquelas árvores magrelinhas pontilhadas de flores amarelas me deixa muito, muito feliz. Mais um ciclo começando!

A despensa da intolerante

A despensa da intolerante

Já contei aqui que descobri recentemente ser intolerante à lactose. O primeiro passo foi (parar de chorar e) adaptar as comidinhas do dia a dia. O café da manhã, o almoço na rua, os jantares em casa. Foi assim que descobri que costumava cozinhar com um monte de produtos lácteos, apesar de não tomar leite puro há anos. Era um chocolate para brownie aqui, um filé na manteiga ali, tortas amanteigadas, queijos em abundância no macarrão… Assim, amigos, não tem jeito: para quem é top intolerante, como eu, a conta sai cara para a saúde. Mas como é que eu ia saber, né? Mais de uma década me tratando em gastros e afins e só o meu médico atual pediu o exame de lactose…

Mas enfim. Daí que a fase dois consiste em fazer a limpa na despensa, ou seja, usar (e doar) tudo aquilo que eu comia outrora, mas que a partir de agora só fazendo uso de lactase, e olhe lá! Remexendo a despensa/geladeira, descobri pacotes fechados de manteiga, barras de chocolate, misturas prontas para cookies/panquecas com lactose na receita, creme de leite, leite condensado, docinhos à base de leite, litros de leite de cabra, etc. Tudo delicioso mas, por ora, proibido. Alguns – como os leites de cabra – eu vou aproveitar para fazer kefir. Estou pesquisando o consumo desse leite fermentado caseiro por quem tem intolerância à lactose, se funcionar, conto aqui. Mas, adiantando, o kefir é um leite fermentado com teores muito baixos de lactose, além de conter enzimas que ajudam a quebrar esse açúcar restante. Se funcionar, será lindo. Se não funcionar, vou fazer kefir de água e ser feliz do mesmo jeito – o que importa é dar aquela força probiótica ao organismo, em forma de uma bebida refrescante e agradável.

A falta que o chocolate faz…

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Chocolates sem lactose: a busca continua. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima


Incrível como cada um sente falta específica de alguma comida ao descobrir a IL (já estou até íntima do termo, ai, ai). Lendo blogs de outros intolerantes, como este aqui, descubro que alguns sofreram por deixar de consumir o leite puro, outros sentem falta de pizza cheia de queijos, de molho branco. Para mim, o difícil DE VERDADE é deixar de comer chocolate. Chocolate bom, daqueles que derretem na boca, daqueles feitos apenas com cacau, manteiga de cacau, um mínimo de açúcar. E olha: eu sempre adorei qualquer tipo de chocolate, e os amargos eram top favoritos. Mas, para minha tristeza, até as marcas premium tipo Callebaut e Lindt fazem chocolates beeeem amargos, só que com o aviso inevitável de “pode conter traços de leite”.

Para amenizar as primeiras semanas de adaptação, foquei em encontrar apenas chocolates sem lactose, feitos de soja ou com enzima adicionada. Nova surpresa: a maioria é adoçada com edulcorantes artificiais. A intolerância à lactose causa, como um dos principais sintomas, diarréia. E esses adoçantes podem soltar o intestino, então… Não se pode abusar.

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Tablete Zero Lactose, da Cacau Show: campeão até agora. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

Agora voltando às descobertas: um chocolate sem lactose de fato me agradou 100%, uma barra meio amarga, de chocolate puro, pouco doce, sem edulcorantes. Essa barra de chocolate faz parte da linha Zero da Cacau Show, pode ser encontrada nas lojas da marca e custa menos de 10 reais uma barra de 100 gramas (em São Paulo, paguei 8,90 reais). Achei justo e me emocionei de verdade. A atendente foi super simpática e me avisou que eles fazem também língua de gato sem lactose – só não tinham naquele dia porque, segundo ela, a “procura é muito grande.” Ah, esses tabletes da Cacau Show também não têm glúten.

Também provei o chocolate da Nestlé Classic zero açúcar, zero lactose (o preço é bom: 2,30 reais) com bom sabor do cacau, mordida ótima, mas um pouco de sabor residual de adoçante. É para aqueles dias que queremos um chocolate bem amarguinho, do jeito que eu gosto. No dia a dia, os chocolates ChocoSoy, da Olvebra, quebram um galho, mas muitos também têm os edulcorantes artificiais, então prefiro evitar. As bolinhas crocantes dessa linha são boas.

Antes que alguém me acuse de chata, eu explico a minha implicância com os adoçantes artificiais: descobrir a IL aos 34 anos me rendeu uma gastrite e uma colite ulcerativa que já duram 12 anos. Sim, mais de uma década. Por isso, dou um VIVA! às marcas que comercializam produtos especiais com o mínimo de interferência possível. Aqui, vale mencionar que também amo café, mas tenho de tomar essa bebida com cuidado, apenas os melhores e mais bem manipulados, especialmente os arábicas. Agradeço, então, publicamente, às empresas de café especial que fazem excelentes produtos, descafeinados ou não. A Nespresso está de parabéns pelo Decaffeinato, a cápsula vermelhinha não sai mais da minha despensa. Também adoro os cafés da Isabela Raposeiras, do Coffee Lab, sempre cuidadosamente torrados para extrair o melhor em aroma e sabor.

E assim vamos nós, vivendo e aprendendo.

* Em tempo: se você tiver dicas de chocolates sem lactose, fique à vontade para deixar um comentário ou mandar um email. Ficarei grata de trocar figurinhas com outros IL pelo mundo. :)

* Em tempo 2: este post NÃO é um publieditorial. Faço resenhas de produtos que compro e meus comentários servem apenas ao propósito de trocar informações sobre eles. Vale lembrar que qualquer opinião expressa neste blog NÃO invalida uma consulta com profissional especializado. Na dúvida, procure sempre um médico ou nutricionista.

Aula de cozinha

Aula de cozinha

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Cozinhar, comer, escrever até o infinito. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

Este ano, o Guloseima completou, em abril, sete anos de existência. Sete, o número cabalístico, das notas musicais às cores do arco-íris. Sete, o número da sorte. Daí que, nessa quase uma década de vida, um monte de coisa aconteceu por aqui. Não precisava lembrar, mas eu vou lembrar, porque acho que faz parte.

O Guloseima foi minha primeira tentativa concreta de escrever sobre gastronomia, sobre os sabores que eu provava, aromas que sentia, e que precisava passar para o papel – mimetizado na tela em branco do computador. E daí para as muitas telas, em branco ou coloridas, de notebooks, smartphones, tablets e todos esses acessórios que a gente usa com tanta naturalidade que nem parece que, ainda ontem, nos aboletávamos no sofá com um telefone pesadíssimo no colo, rodando os números num disco sobre o aparelho…

Parece que foi ontem, mas já faz tempo. E, de lá para cá, desde que tudo começou aqui neste blog, escrevi para muitas revistas e sites, dei aulas de jornalismo gastronômico, publiquei um livro de receitas, cozinhei para os amigos, estudei, estudei, degustei, degustei, e sigo escrevendo. Profissionalmente e por gosto, e isso se confunde tantas vezes que basta dizer que adoro o que faço na Prazeres da Mesa, assim como adoro o que faço aqui, neste espaço que é só meu.

E foi justamente este espaço que me ajudou a derivar meu amor eterno pela gastronomia para outros patamares: comecei a dar aulas de cozinha. “Aula de cozinha para principiantes”, assim batizei meu curso, que tem o objetivo simples de ajudar as pessoas a cozinhar para viver melhor. Por que isso? Porque, para mim, cozinhar é tão natural, e me faz tão bem, que sofro ao ver amigos se digladiando com as panelas. Especialmente agora, em que tantos conhecidos e amigos estão tendo filhos e, por consequência, deparando-se com a inevitável realidade: quem vai cozinhar para os pequenos?

Não vou, aqui, entrar em debate sobre o poder do dinheiro e suas vantagens, do tipo: “ah, coloca na escolinha A, B ou C, que inclui almoço”; “ah, paga uma babá que cozinhe”, “ah, ZZzzzzz”. Isso eu deixo para cada um escolher, de acordo com sua situação econômica. O meu objetivo é outro: é fazer você, querido leitor, descobrir que é possível cozinhar receitas simples e deliciosas naquela cozinha diminuta do seu apartamento. Enquanto não tiver um espaço para acomodar vários alunos numa mesma sala, opto por dar aulas particulares na casa do aluno, em módulos, de acordo com o interesse de cada um. Mais personalizado, impossível. Pense numa aula divertida, na sua cozinha, com os seus utensílios e ingredientes, almoço pronto no final de tudo? Muito legal.

Mês passado foi minha primeira experiência e fiquei cheia de orgulho ao ver as duas primeiras alunas com brilho nos olhos de descobrir a maneira correta de segurar a faca, de observar pequenos truques para temperar a rotina, as panelas de todo dia.

Agora, entre um compromisso e outro, uma pauta e outra, dou aulas de cozinha para principiantes. Garanto que o preço é justo. Aos interessados, ficarei felicíssima de receber seus e-mails de contato em guloseimacom (arroba) gmail (ponto) com. Se preferir, entre em contato comigo nos comentários do blog ou na nossa fanpage no Facebook: http://www.facebook.com/GuloseimaBlog

E bora lá fazer aquela sopa deliciosa de abóbora, um risotinho para estas noites frias ou esta perdição para a sobremesa: shortbread de caramelo e chocolate.

Sea change, ou a vida entre viagens

Sea change, ou a vida entre viagens

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Estrada em Mendoza, Argentina, numa incrível viagem a trabalho para conhecer vinícolas e a boa comida local. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

“(…) living out of sight of any shore does rich and powerfully strange things to humans.”
(M.F.K. Fisher, em The Gastronomical Me)

M.F.K. Fisher, autora norte-americana das mais famosas, e uma das favoritas desta casa no quesito food writing, fez reflexões muito acuradas em seus livros do quanto as viagens mexem conosco. Ela chamou a esse sentimento, e as ações que derivam dele, de “sea change” – em sua época, viagens longas, como da América para a Europa, eram feitas de navio, o que justifica o nome. Em vários capítulos de seu The Gastronomical Me, uma de suas obras mais pessoais, há diversas menções a isso. Derivando para os tempos modernos, e tendo passado a vida ultimamente entre aeroportos, me identifico com o sentimento. “Sea change”. Viajar exaure e modifica.

Especialmente, as viagens que envolvem vinhos e gastronomia. São maravilhosas, sempre. Jantares, almoços, restaurantes, vinícolas, gente de todo mundo se encontrando para comer, beber, perguntar, provar, desapegar-se das situações de sempre para colocar à prova todos os sentidos. Não é necessariamente um exagero, embora seja. Afinal, bebe-se e come-se o tempo todo, mas, inexplicavelmente, sem perder o controle – afinal, é trabalho. E, mesmo se não fosse, quem gosta de perder o controle diante de tantas coisas novas para ver, sentir, observar, tocar, cheirar? Viajar desse jeito é incrível, sim, mas promove mudanças profundas dentro da gente. Sempre que volto de uma aventura dessas, me sinto impregnada, como se meu corpo fosse uma esponja cheia de gotículas, fragmentos de gentes, de coisas, comidas, bebidas, taças, impressões trocadas, sensações.

Demoro um tempo para me sentir em casa novamente. Dentro do táxi, no caminho do aeroporto até meu diminuto apartamento, sempre se passa a mesma coisa: observo as ruas de sempre, sinto o cheiro de sempre, vejo as mesmas cores, estou lá, mas é como se não estivesse. Ao chegar em casa, a mesma sensação me invade – estou, mas ainda não. Ainda não. Édouard Levé, fotógrafo e escritor francês, em um de seus textos mais inspirados, descreveu bem essa sensação. “When I am returning from a trip, the best part is not going through the airport or getting home, but the taxi ride in between: you’re still traveling, but not really.” Aliás, recomendo a leitura do texto completo, publicado na Paris Review e disponível na íntegra neste link aqui. Só o nome já é uma delícia: “When I look at a strawberry I think of a tongue.”

Depois de alguns dias, como alguém que passa muito tempo vivendo no mar, e volta para casa ainda sentindo o universo rodar ligeiramente, essa energia estranha se dissipa, deixando espaço para que as memórias da viagem voltem e ocupem seus devidos lugares. É nesse momento que dá a saudade de conversar com as amizades recém-feitas, de cozinhar com aqueles temperos acondicionados cuidadosamente entre meias e sapatos, de abrir o vinho que lembra aquele jantar especial, com aquela visão incrível dos Andes monstruosos, de rever as fotos de momentos bobos e mágicos partilhados entre ex-estranhos. Quase amigos.

Estive recentemente em dois lugares diferentes, sempre a trabalho: Mendoza, na Argentina, e Las Vegas, nos Estados Unidos. Ambos desertos, ambos palcos de festivais gastronômicos fartos em comidas e bebidas. Detalhe: com apenas dois dias de diferença entre uma e outra viagem. Nunca senti tão profundamente o meu “sea change” quanto agora. Ainda estou impregnada de tantas sensações, palavras em outras línguas, sabores exóticos e agradáveis ao meu paladar. Tento me espremer na rotina para voltar à realidade e dar conta de todos os afazeres que acompanham essas longas viagens. Afinal, não basta viajar: é preciso escrever tudo depois. É a nossa âncora.

Para ajudar na passagem, voltei para a cozinha, onde me sinto bem. A vontade de cozinhar é um dos sinais de que o sea change está indo embora. Passei no mercado, comprei itens essenciais e fiz a coisa mais simples: caldo de frango com legumes, frango assado com mostarda e batatinhas. Reconfortante, essencial, como tem de ser – para trazer de volta aquela familiaridade dos dias, aquele aconchego delicado, quase como um abraço.

CALDO DE FRANGO CLARINHO COM LEGUMES
6 porções fartas

1 peito de frango com osso e pele
4 cenouras descascadas e cortadas em cubinhos
1 lata de milho verde – ou ainda melhor, 1 pacote de milho verde congelado
1 alho-poró inteiro, bem lavado, em rodelas
1 cebola picadinha
2 dentes de alho picadinhos
Azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Salsinha picada a gosto
2 folhas de louro
Gotas de azeite de merkén (merkén é uma especiaria chilena, típica dos mapuches, feita com pimenta defumada e seca, sementes de cominho e de coentro maceradas e sal)
Água quanto baste

Lave bem o peito de frango, seque e tempere com azeite de merkén e sal. Aqueça um pouco de azeite de oliva numa panela grande e doure o peito de frango inteiro, com a pele virada para baixo. Quando estiver dourada, vire-o e deixe dourar do outro lado. Cubra-o com água quente e acrescente as cenouras, a cebola, o alho-poró, o alho e as folhas de louro. Tempere com um pouco de sal e pimenta e deixe ferver. Abaixe o fogo para o mínimo e cozinhe até o frango ficar macio, escumando as impurezas que subirem. Retire-o do caldo, deixe esfriar e desfie-o – descarte a pele e os ossos. Volte a carne desfiada para o caldo, corrija o sal e a pimenta e acrescente o milho verde escorrido. Se a cenoura já estiver macia, acrescente a salsa e sirva. Fica ótimo com torradas esfregadas com alho fresco, gotas de azeite e sal marinho. Se preferir uma sopa mais magra, retire a pele antes do preparo – ou deixe o caldo esfriar e remova a gordura que subir à superfície.

FRANGO ASSADO COM MOSTARDA E BATATINHAS
4 porções fartas

4 sobrecoxas e 5 coxas de frango, com ou sem pele (usei com)
3 colheres (sopa) de mostarda de Dijon com estragão
1/2 cebola picada
6 dentes de alho inteiros, com casca
Suco de 1 limão caipira
1 quilo de batatinhas tamanho míni, com casca, partidas ao meio
3 cenouras sem casca, em tiras
3 folhas de louro
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Azeite a gosto

Tempere o frango com sal, suco de limão e pimenta. Acrescente a mostarda e deixe marinar por 30 minutos, no mínimo. Enquanto isso, prepare os legumes. Unte uma forma grande com azeite e disponha os pedaços de frango com toda a marinada. Acrescente as batatinhas, as cenouras, os dentes de alho e as folhas de louro. Polvilhe com mais sal e pimenta, 1 fio de azeite, e leve para assar em forno alto por 40 minutos, até a pele dourar. Retire do forno, regue com o suco que se formou na assadeira e cubra com papel-alumínio (ou papel-manteiga). Abaixe o fogo para médio e asse por mais 30 a 40 minutos, para cozinhar bem, regando a carne de vez em quando durante esse período. Descubra a assadeira e finalize por mais 15 minutos, ou até dourar.

Simplicidade

Simplicidade

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Eu falo de comida o tempo todo, gosto de comer, escrevo sobre isso e me considero afortunada por poder passar 24 horas por dia, literalmente, me dedicando ao assunto. E o Guloseima, claro, faz parte desse espaço que eu venho construindo, passo a passo, desde que tomei a sábia decisão de trabalhar exclusivamente com gastronomia – jornalismo e literatura incluídos nesse panteão.

Mas acontece que a gente vai engatando uma coisa na outra e a correria é tão imensa que às vezes a gente esquece do essencial, da simplicidade da coisa. Eis que hoje, finalmente, faço o que gosto em termos de profissão, mas tenho estranhamente me sentido fatigada, vazia mesmo, sem nada o que dizer a respeito daquilo que mais amo: comida. É como o Héctor Abad escreveu em seu lindo Livro de receitas para mulheres tristes, publicado pela Cia das Letras: “Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula.”

Simplicidade. Quando a mente cansa dos rituais, quando o corpo pede uma pausa, meu conforto está no silêncio, na paz, no simples. Mesmo com essa consciência, me deparei ocupando os pensamentos e o coração com questionamentos do tipo “O que posso fazer hoje para me divertir? Como posso descansar a mente tão fatigada?”, num dos poucos fins de semana em que não tinha compromissos a cumprir, ninguém doente (thank God) e nada pedindo minha presença, julgamento ou decisão urgentes. Alívio pelo tempo livre, susto por não saber como ocupá-lo.

Decidi ir ao cinema, paixão das antigas. Fui cedo, mas São Paulo sempre me surpreende: sessões estavam lotadas. Com fome e absolutamente enfastiada com as multidões que caminhavam na Paulista, afluíam aos cinemas e se debatiam em filas para comer nos cafés e restaurantes, abracei a simplicidade: queria voltar para casa, e rápido, para comer a minha comida, feita por mim e para mim.

Primeiro, brigadeiros: uma caixinha com quatro unidades, nos sabores tradicional, amargo, pistache e doce de leite. Depois, mercado: salmão defumado, queijo feta, e baguete estalando de tão fresca na padaria fofa que abriu aqui do lado.

Que sensação deliciosa voltar para casa! Sacola de compras, pão debaixo do braço, meu bairro me abraçando com seus mercadinhos, as pessoas felizes nos botecos, o céu cinza que convidava a ficar no sofá.

Assim improvisei meu almoço, um sanduíche simples acompanhado de uma taça de vinho. Saladinha de alface-catalônia orgânica, limão siciliano, sal, pimenta, queijo feita, azeitonas, tomatinhos. Uma versão da sempre benvinda salada grega. No pão, um ovo poché perfeito, cozido na água com vinagre de sidra, mais azeite, salmão defumado, gotinhas de limão e a pimenta moída na hora.

À taça de vinho, seguiu-se o espresso com os brigadeiros artesanais. E uma tarde de sábado simples, um pouco introspectiva, talvez, mas com aquela certeza tranquila de que não é errado precisar de descanso e paz  para acomodar melhor com as nossas mais loucas paixões.

Bolo gringo

Bolo gringo

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No começo do ano, ganhei uma massa de bolo norte-americana, cheirosa e macia, daquelas misturas prontas que produzem bolos de maneira prática, bastando acrescentar ovos, manteiga e leite. Uma massa texana, Sweet Cream Cake Mix (da San Antonio River Mill Brand), que, ainda dentro da embalagem, já exibia seu aroma delicioso de creme e baunilha.

Fato é que resolvi testá-la apenas hoje, um dia frio daqueles, feriado em São Paulo, com uma gripe ameaçando me derrubar. Como se vê, demorei meses até ter coragem de assar o bolo gringo, esperando pelo momento especial. Tenho muito disso, é uma mania que me acompanha desde criança: esperar o momento “especial” para comer tal guloseima, ou preparar tal prato. Às vezes tem uma certa utilidade, como quando recebo visitas inesperadas e tenho alguma coisinha gostosa para colocar à mesa. No mais das vezes, porém, é apenas bobagem minha, que já me rendeu a perda de muito ingrediente bom por simples… esquecimento.

Mas hoje, não. Decidida a não me deixar vencer pela gripe e pelas mesquinharias da vida, resolvi assar o bolo gringo para ver no que é que daria. Primeiro, o mais importante: converter aquelas medidas estranhas – onças, libras, fahrenheit – para o nosso amado sistema métrico de todo dia. Daí que 6 onças (oz) viraram 170 g de manteiga, e 300 graus F viraram, bem, o forno mais baixo possível, já que meu fogão só permite, como temperatura mínima, 180 a 200 graus Celsius, um pouquinho acima dos 170oC pedidos na conversão.

Divertido! Em seguida, o desafio de achar a forma certa: a embalagem (um lindo saquinho de pano, com o logotipo da marca e a receitinha no verso) informava ser necessário uma forma de bolo com furo no meio, grande, untada apenas com óleo. Só tenho formas pequenas (shame on me), então tive que improvisar.

Batendo a massa, logo percebi que a intenção é que o meu Sweet Cream Cake ficasse muito, muito macio. Mas haja batedeira! A massa, cremosa e amanteigada, virou rapidamente um creme denso, espesso, gordo – manteiga para tudo o que foi lado!

Só que eu não tenho uma Kitchen Aid para me ajudar nessas horas, então… O resultado foi uma batedeira quase arriando, enquanto eu ajudava, manualmente, a empurrar a massa para as pás que giravam e giravam, esforçadas, quase inúteis.

Depois de devidamente batida, a surpresa: era MUITA massa. Muita mesmo! Usei então duas formas de pão pequenas, uma forma de cupcakes (com capacidade para 6 unidades), mais uma forma pequena de bolo, com furo no meio. E paguei para ver.

Forno baixo, todas as formas juntinhas, e a o fogo começou a fazer sua mágica: depois de alguns minutos, a casa ganhou um perfume delicioso. Creme, manteiga, açúcar, ovos, leite, baunilha… Tudo junto e misturado, aquecendo a minha cozinha tão fria.

Depois de assados, a surpresa: aquela massa pesadona e rica transformou-se em bolos macios e delicados, de crosta crocante e interior fofinho, doces na medida certa, sem exagero para nenhum dos lados. Nada de gordura sobrando, nem cheiro de ovo, nem açúcar demais. No ponto, perfeita, a massa certa para um dia como hoje.

Como é um bolo básico, deve ficar uma delícia com acompanhamentos do tipo geleias, marshmallow, ganache meio amarga, caldinha de limão… O meu deve ganhar dois dedinhos de doce de leite Lapataia, que outro amigo me trouxe como lembrança – e é divino para bolinhos assim.

Para acompanhar, um bom café feito na french press, para beber com calma junto com meu bolo gringo – aliás, texano, para mandar todos os meus preconceitos pelo ralo. E eu que achava que a América só tinha mesmo era hambúrguer, Coca-cola e algumas cervejas.

Olha a minha massa aqui!

Amigos, não se acanhem: na próxima visita ao Texas, podem trazer essa e outras misturas deliciosas para assar. E não esqueçam de mim! ;)

Delícias de SP

Delícias de SP

São Paulo, capital. A cidade em que nasci. A cidade que amparou meus primeiros passos e beijos, os tombos de bicicleta, as corridas e brincadeiras de pular corda na rua, as mágoas que eu achei que nunca iam passar, os meus trabalhos, as minhas cozinhas, o meu amor. Minha cidade, meu pequeno país.

É claro que eu poderia falar aqui de um monte de lugares que adoro na cidade, como o Museu do Ipiranga, a avenida Paulista, o meu bairro de Pinheiros. Mas como a comida é sempre o primeiro assunto que toca meu coração, não tenho como fugir do óbvio: selecionar, pela lembrança e pelo carinho, as comidinhas que primeiro me vêm à cabeça quando tenho fome nesta cidade enorme. São muitas, claro. E uma lista como esta é sempre injusta. Mas aqui o voto é de memória, sim: a minha. Confira o que eu mais gosto de comer em São Paulo! Mais

A um passo do Natal

A um passo do Natal

Natal chez nous

Natal 2011: note o cogumelo psicodélico e purpurinado

A casa já está cheia de gostosuras natalinas: nozes, avelãs, amêndoas e castanhas portuguesas foram adquiridas junto com damascos, figos e ameixas secas no Mercado da Lapa, em São Paulo. É sempre uma aventura ir ao mercadão nesta época do ano, mas é inegável o prazer de encontrar produtos de época mais fresquinhos e mais baratos.

Ainda estou na dúvida sobre o que fazer nesta ceia… Este ano planejo sair um pouco do habitual, tentar um prato novo, algo que possa, talvez, transformar-se numa tradição natalina, para o dia em que eu tiver filhos e netos. Mas não sei bem por onde começar, pois não tenho sentido desejo de comer nada em particular.

O marido pediu o macarrão de nozes da avó, uma receita intrigante, adocicada. E eu não posso abrir mão dos crôstolis que minha mãe me ensinou há tanto tempo, receita que venho praticando desde que minhas mãozinhas mal conseguiam segurar a faca de pão. A arte de fazer pequenas coisinhas crocantes e doces, que vem passando de geração para geração e sempre me traz lembranças felizes.

Este ano tem sido duro, mas de um aprendizado impressionante. Perdemos membros de nossa família, sinal da passagem inevitável do tempo… Mas ganhamos a alegria de ver minha sobrinha crescendo, falando, desenvolvendo uma personalidade tão forte e bonita. Não fazia ideia de como ter crianças por perto mudam nossa perspectiva.

Natal, para mim, é isso. Uma festa com contornos religiosos, claro, mas mais do que tudo uma celebração da família. De quem a gente escolhe como família.

E por mais que eu trabalhe com gastronomia e descubra inúmeras delícias novas, quando chega esta época do ano eu só penso em peru assado, tender, pernil suculento com a carne desfiando… Salada de batatas, farofa com miúdos e uva passa, o prato enorme de frutas da época: pêssego, ameixa, uvas, cerejas, mangas. As nozes na casca me lembram meu pai, a alegria de sentar à mesa e abrir uma noz após a outra, tentando preservar as casquinhas para fazer um brinquedo, um joguinho… Sinto ainda agora o aroma desses Natais passados, outro tempo, quase outra vida.

E uma coisa puxa a outra, que puxa outra: o presépio com algodão (!), o papel-pedra amassado fazendo-se passar por montanhas áridas, o menino Jesus que sai da manjedoura e só é colocado nela à meia-noite. As luzes coloridas, o papel brilhante prateado, os presentinhos de brilho colorido.

É isso, o Natal certamente me deixa mais sentimental do que já sou. E este ano, em particular, mais do que já fui um dia.

E eu ainda não encontrei a receita certa para comemorá-lo do meu jeito, do nosso jeito, do jeito certo. Sigo em busca. 

(Mas já que eu falei em crôstoli, veja aqui a receitinha da minha mamma – pode ser servida com açúcar e canela, mel ou açúcar mascavo. Ou tudo junto.

A comida favorita

A comida favorita

Paris

Ando numa temática comfort food atualmente, comida de alma, aquilo que nos aquece e alimenta em vários sentidos. Por isso tenho me questionado quase que diariamente sobre nossos hábitos alimentares, as escolhas que fazemos diariamente. O que é que a gente come quando está com fome?

Tenho feito umas experiências malucas na cozinha. Nada muito cozinha molecular, longe disso. Apenas tento mudar os temperos e criar inúmeras variações sobre o tema. Arroz, por exemplo. Tenho em casa, geralmente, arroz branco, arroz integral (e suas variedades), arroz negro e arroz para risoto. No dia a dia, acabo optando pelo arroz integral, mas meu paladar fica rapidamente saturado se o ingrediente for preparado todo dia da mesma forma.

Então eu mudo. Cozinho com louro, com tomilho, frito na manteiga, ou no bacon, geralmente no azeite, que prefiro. Um campeão das variações tem sido arroz integral com cúrcuma, azeite e louro. Fica perfumado, e a especiaria dá um sabor menos sem graça para o arroz.

Verduras, a mesma coisa. Descobri que gosto mais de legumes e verduras do que de frutas, pasmem. Mas detesto legume molenga, refogado com óleo, cebola e alho. Então procuro salteá-los apenas com alho e azeite, um pouco de pimenta-do-reino para finalizar, e está tudo bem. Suco de limão espremido na hora também faz milagres!

O mesmo raciocínio vale para tudo: massas, carnes, ensopados. Misturo o que estiver à mão e parece combinar, e da cozinha surgem coisas como bolo salgado de escarola com alcaparras e aliche, espaguete com abóbora, bacon e sálvia (esta foi inspirada na capa da Menu), cubinhos de carne com cheiro-verde e cominho…

Enfim, mil pensamentos misturados cozinhando junto com a panela de sopa, de arroz, mexendo o risoto.

Tudo isso para perguntar: o que é que você come? Qual a sua comida favorita? A minha, definitiva, ainda não sei.

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