Bolinhos de atum

Bolinhos de atum

Meu gosto pelas panelas começou desde criança, quando aprendi a fazer omelete. Eu quebrava os ovos e tentava, muitas vezes, não fazer a delicada mistura despedaçar na frigideira escura e antiga da minha mãe.

Gostava de me arriscar na cozinha, preparando coisas simples, doce de leite, biscoitos (variações e variações de biscoitos…), nada muito requintado ou difícil. Arroz, por exemplo, só me arrisquei a preparar mais tarde, já morando sozinha. Eu sentia muita insegurança ao preparar arroz e feijão, essas coisas do dia-a-dia.

Talvez por isso eu tenha optado por preparar um macarrão – que ficou horrível, diga-se – a primeira vez que decidi cozinhar para mim mesma, numa casa que eu dividia com meu namorado, à época, e uma tonelada de amigos.

Num certo momento da minha vida, eu achava que cozinhar não combinava, digamos assim, com uma imagem de “mulher moderna”. Eu achava bonito dizer “puxa, não sei fazer nem arroz”, dava um certo orgulho. Mais tarde aprendi que era tudo bobabem e que aquilo fazia parte da minha fúria adolescente. Porque, convenhamos, preparar uma boa comida, ainda que seja só para nós mesmos, é delicioso.

Não tenho nada contra quem não cozinha, evidentemente. Mas eu precisava aprender. Eu não gosto de comer mal, e foi isso, mais do que tudo, o que me trouxe de volta às panelas.

Isso, é claro, e a saudade imensa, voraz, que eu sentia da comida da minha mãe. Eu era uma menina mimada e não sabia. Só fui descobrir o fato quando me deparei com uma cozinha inteira só pra mim, morando sozinha.

No começo, tive a fase dos congelados. Depois, passei a investir nas saladas. Até pouco tempo, nunca tinha me arriscado a fritar (por imersão) nem batatinhas.

Mas por que eu estou dizendo tudo isso? Por que eu me peguei pensando, nessa fase tão corrida da minha vida, que não é demérito algum gostar de cozinhar, cuidar da casa, das pequenas rotinas. Antes eu não sentia falta disso, mas cada vez mais tenho gostado dessas coisas do lar. O que eu continuo detestando é a obrigação. Por obrigação, eu faço poucas coisas nesta vida.

Encarnei tão forte o espírito da coisa que, no domingo, me peguei inventando uma receita simples, de bolinhos de peixe, que fritei aos montes para os amigos que estavam em casa, e todos adoraram.

Acho que o mais precioso dessa aventura é que ela mal começou. A cada visita aos blogs amigos, a cada receita que descubro, quero saber mais e mais.

Tanto que uni a delícia de cozinhar à delícia de escrever, e é por isso, só por isso, que estou escrevendo o comecinho destas memórias gastronômicas que, agora, vão ficar mais ricas com a colaboração de todos vocês, amigos leitores.

E viva os bolinhos!

Bolinhos de atum

BOLINHOS DE ATUM
3 batatas médias, cozidas com sal e amassadas
2 latas de atum (em água), escorridas
1/2 cebola picadinha
2 dentes de alho picadinhos
2 colheres (sopa) de manteiga
1 colher (sopa) de azeite
1 colher (chá) de sal grosso
1 1/2 colher (chá) de molho inglês
Pimenta-do-reino fresca, moída na hora, de preferência
4 ovos inteiros
1 colher (sopa) de farinha de trigo
Cheiro-verde picadinho (um punhado)
Óleo para fritar

Primeiro, cozinhe as batatas com sal. Quando estiverem cozidas, escorra, amasse e deixe esfriar. Enquanto isso, misture o atum, o sal, a pimenta-do-reino, o cheiro-verde picadinho, as gemas e 1 colher de manteiga. Use a outra colher de manteiga para refogar o alho e a cebola, junto com o azeite. Quando estiver frio, junte à mistura.

Mexa bem e misture as batatas. Acrescente a farinha de trigo e o molho inglês e mexa mais um pouco. Bata as claras em ponto de neve e adicione à massa, delicadamente. Quando a massa estiver pronta, aqueça bastante óleo numa frigideira funda e frite os bolinhos, às colheradas. Retire quando estiverem dourados e crocantes por fora, e deixe escorrer em folhas de papel-toalha. Sirva imediatamente.

É um ótimo petisco para comer junto àquela cerveja bem gelada. Com gotas de molho de pimenta Tabasco, fica um delírio.

Kaftas ao forno

Kaftas ao forno

Uma sexta-feira de folga é sempre uma sexta-feira de folga, e não deve ser tratada com leviandade.

Para aproveitar, convoquei duas companhias agradáveis para me escoltar num passeio rumo às delícias do centro de São Paulo. A ideia era visitar o Mercado Municipal de São Paulo, carinhosamente tratado de “Mercadão”.

Mas, uma vez no centro, sabemos que é impossível resistir a milhares de tentações no caminho. Para começar, tomamos café da manhã no Girondino, um café simpático, com cara de antiguinho, ao lado do metrô São Bento. Café com leite e baguete com manteiga para começar o dia.

Aproveitamos para dar uma passadinha simpática pelo Mosteiro de São Bento que, sabemos, hospedará o Papa Bento XVI em maio deste ano. É uma igreja linda, enorme, escura, com cara de européia; fiquei surpresa com a quantidade de gente rezando àquela hora da manhã.

Antes de ir ao Mercadão, passamos no Empório Syrio, uma visita que renderá histórias por, pelo menos, um ano. Aquisições: fava de baunilha (seguuura, Jamie Oliver!), pimenta síria, zattar (tempero árabe), pessegada na caixinha de madeira (alguém lembra disso?) e dois pacotes imensos de goma árabe, aquelas cobertas com açúcar fininho, coloridas.

Entrar no Empório é praticamente voltar várias décadas no tempo. Voltar àquela época em que os cereais eram vendidos a granel, e ficavam expostos em móveis de madeira, cada qual no seu compartimento: arroz, feijões, favas, grão-de-bico, lentilhas… e lentilhas laranja, ofuscantes, um escândalo para olhos gastronômicos como os meus.

Já enternecida diante de tantas – e singelas – novidades, demos um pulo no Mercadão, onde todas aquelas frutas, cores, cheiros e sabores deixam qualquer um entorpecido.

Fiquei triste quando meu irmão comentou que o senhor que vendia aves vivas saiu chorando do Mercadão, quando lhe informaram que ele não poderia mais ficar ali com sua banca, após a reforma. “O público mudou”, alegaram. Meu coração se apertou. Também meu avô teve uma banca no Mercadão, muitos e muitos anos antes de eu ser nascida. Meu pai me levou pela mão e me apontou o lugar: “Tá vendo aquela barraca azul? Era ali!”

E eu entendi afinal porque, diabos, tenho groselha correndo nas veias em vez de sangue… Parece que a relação com a comida vem de muito antes do que eu imaginava. Preciso investigar!

Mas antes, eu tenho uma receitinha ótima que minha querida cunhada Angelina, com mãos de fada na cozinha, preparou com os temperos incríveis que trouxemos:

kafta

KAFTAS AO FORNO
1 kg de carne do tipo patinho moída

2 xícaras (chá) de salsa fresca picadinha
1 xícara (chá) de hortelã picadinha
2 cebolas cortadas em cubinhos, ou ralada, ou batidinha
50 g de farinha de trigo
1 pitada de canela em pó
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Zattar a gosto
Pimenta síria a gosto

Misture todos os ingredientes, com a farinha por último, para dar a liga. Modele as kaftas em forma de cilindro e leve ao forno em uma forma untada com óleo. Cubra com papel alumínio por 20 minutos, forno alto. Quando estiverem cozidas, tire o papel aluminío e mantenha no forno até dourar. Vá verificando de vez em quando, para não queimar.

Sirva com salada, ou enrolada no pão folha (outra aquisição no Empório Syrio) com uma camada grossa de homus (pasta de grão-de-bico) e mais salada! É um prato bom para os dias de calor, e acompanha muito bem uma cervejinha muito, muito gelada.

Para fazer uma visita:

Empório Syrio
Rua Com. Abdo Schahin, 40, (paralela à rua 25 de Março)

Mercado Municipal de São Paulo
Rua da Cantareira, nº 306 – Parque Dom Pedro II

Café Girondino

Todos os direitos reservados © Guloseima 2015 – Tema por Lanika.net + Carolina Y