Sea change, ou a vida entre viagens

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Estrada em Mendoza, Argentina, numa incrível viagem a trabalho para conhecer vinícolas e a boa comida local. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

“(…) living out of sight of any shore does rich and powerfully strange things to humans.”
(M.F.K. Fisher, em The Gastronomical Me)

M.F.K. Fisher, autora norte-americana das mais famosas, e uma das favoritas desta casa no quesito food writing, fez reflexões muito acuradas em seus livros do quanto as viagens mexem conosco. Ela chamou a esse sentimento, e as ações que derivam dele, de “sea change” – em sua época, viagens longas, como da América para a Europa, eram feitas de navio, o que justifica o nome. Em vários capítulos de seu The Gastronomical Me, uma de suas obras mais pessoais, há diversas menções a isso. Derivando para os tempos modernos, e tendo passado a vida ultimamente entre aeroportos, me identifico com o sentimento. “Sea change”. Viajar exaure e modifica.

Especialmente, as viagens que envolvem vinhos e gastronomia. São maravilhosas, sempre. Jantares, almoços, restaurantes, vinícolas, gente de todo mundo se encontrando para comer, beber, perguntar, provar, desapegar-se das situações de sempre para colocar à prova todos os sentidos. Não é necessariamente um exagero, embora seja. Afinal, bebe-se e come-se o tempo todo, mas, inexplicavelmente, sem perder o controle – afinal, é trabalho. E, mesmo se não fosse, quem gosta de perder o controle diante de tantas coisas novas para ver, sentir, observar, tocar, cheirar? Viajar desse jeito é incrível, sim, mas promove mudanças profundas dentro da gente. Sempre que volto de uma aventura dessas, me sinto impregnada, como se meu corpo fosse uma esponja cheia de gotículas, fragmentos de gentes, de coisas, comidas, bebidas, taças, impressões trocadas, sensações.

Demoro um tempo para me sentir em casa novamente. Dentro do táxi, no caminho do aeroporto até meu diminuto apartamento, sempre se passa a mesma coisa: observo as ruas de sempre, sinto o cheiro de sempre, vejo as mesmas cores, estou lá, mas é como se não estivesse. Ao chegar em casa, a mesma sensação me invade – estou, mas ainda não. Ainda não. Édouard Levé, fotógrafo e escritor francês, em um de seus textos mais inspirados, descreveu bem essa sensação. “When I am returning from a trip, the best part is not going through the airport or getting home, but the taxi ride in between: you’re still traveling, but not really.” Aliás, recomendo a leitura do texto completo, publicado na Paris Review e disponível na íntegra neste link aqui. Só o nome já é uma delícia: “When I look at a strawberry I think of a tongue.”

Depois de alguns dias, como alguém que passa muito tempo vivendo no mar, e volta para casa ainda sentindo o universo rodar ligeiramente, essa energia estranha se dissipa, deixando espaço para que as memórias da viagem voltem e ocupem seus devidos lugares. É nesse momento que dá a saudade de conversar com as amizades recém-feitas, de cozinhar com aqueles temperos acondicionados cuidadosamente entre meias e sapatos, de abrir o vinho que lembra aquele jantar especial, com aquela visão incrível dos Andes monstruosos, de rever as fotos de momentos bobos e mágicos partilhados entre ex-estranhos. Quase amigos.

Estive recentemente em dois lugares diferentes, sempre a trabalho: Mendoza, na Argentina, e Las Vegas, nos Estados Unidos. Ambos desertos, ambos palcos de festivais gastronômicos fartos em comidas e bebidas. Detalhe: com apenas dois dias de diferença entre uma e outra viagem. Nunca senti tão profundamente o meu “sea change” quanto agora. Ainda estou impregnada de tantas sensações, palavras em outras línguas, sabores exóticos e agradáveis ao meu paladar. Tento me espremer na rotina para voltar à realidade e dar conta de todos os afazeres que acompanham essas longas viagens. Afinal, não basta viajar: é preciso escrever tudo depois. É a nossa âncora.

Para ajudar na passagem, voltei para a cozinha, onde me sinto bem. A vontade de cozinhar é um dos sinais de que o sea change está indo embora. Passei no mercado, comprei itens essenciais e fiz a coisa mais simples: caldo de frango com legumes, frango assado com mostarda e batatinhas. Reconfortante, essencial, como tem de ser – para trazer de volta aquela familiaridade dos dias, aquele aconchego delicado, quase como um abraço.

CALDO DE FRANGO CLARINHO COM LEGUMES
6 porções fartas

1 peito de frango com osso e pele
4 cenouras descascadas e cortadas em cubinhos
1 lata de milho verde – ou ainda melhor, 1 pacote de milho verde congelado
1 alho-poró inteiro, bem lavado, em rodelas
1 cebola picadinha
2 dentes de alho picadinhos
Azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Salsinha picada a gosto
2 folhas de louro
Gotas de azeite de merkén (merkén é uma especiaria chilena, típica dos mapuches, feita com pimenta defumada e seca, sementes de cominho e de coentro maceradas e sal)
Água quanto baste

Lave bem o peito de frango, seque e tempere com azeite de merkén e sal. Aqueça um pouco de azeite de oliva numa panela grande e doure o peito de frango inteiro, com a pele virada para baixo. Quando estiver dourada, vire-o e deixe dourar do outro lado. Cubra-o com água quente e acrescente as cenouras, a cebola, o alho-poró, o alho e as folhas de louro. Tempere com um pouco de sal e pimenta e deixe ferver. Abaixe o fogo para o mínimo e cozinhe até o frango ficar macio, escumando as impurezas que subirem. Retire-o do caldo, deixe esfriar e desfie-o – descarte a pele e os ossos. Volte a carne desfiada para o caldo, corrija o sal e a pimenta e acrescente o milho verde escorrido. Se a cenoura já estiver macia, acrescente a salsa e sirva. Fica ótimo com torradas esfregadas com alho fresco, gotas de azeite e sal marinho. Se preferir uma sopa mais magra, retire a pele antes do preparo – ou deixe o caldo esfriar e remova a gordura que subir à superfície.

FRANGO ASSADO COM MOSTARDA E BATATINHAS
4 porções fartas

4 sobrecoxas e 5 coxas de frango, com ou sem pele (usei com)
3 colheres (sopa) de mostarda de Dijon com estragão
1/2 cebola picada
6 dentes de alho inteiros, com casca
Suco de 1 limão caipira
1 quilo de batatinhas tamanho míni, com casca, partidas ao meio
3 cenouras sem casca, em tiras
3 folhas de louro
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Azeite a gosto

Tempere o frango com sal, suco de limão e pimenta. Acrescente a mostarda e deixe marinar por 30 minutos, no mínimo. Enquanto isso, prepare os legumes. Unte uma forma grande com azeite e disponha os pedaços de frango com toda a marinada. Acrescente as batatinhas, as cenouras, os dentes de alho e as folhas de louro. Polvilhe com mais sal e pimenta, 1 fio de azeite, e leve para assar em forno alto por 40 minutos, até a pele dourar. Retire do forno, regue com o suco que se formou na assadeira e cubra com papel-alumínio (ou papel-manteiga). Abaixe o fogo para médio e asse por mais 30 a 40 minutos, para cozinhar bem, regando a carne de vez em quando durante esse período. Descubra a assadeira e finalize por mais 15 minutos, ou até dourar.

Delícias de SP

São Paulo, capital. A cidade em que nasci. A cidade que amparou meus primeiros passos e beijos, os tombos de bicicleta, as corridas e brincadeiras de pular corda na rua, as mágoas que eu achei que nunca iam passar, os meus trabalhos, as minhas cozinhas, o meu amor. Minha cidade, meu pequeno país.

É claro que eu poderia falar aqui de um monte de lugares que adoro na cidade, como o Museu do Ipiranga, a avenida Paulista, o meu bairro de Pinheiros. Mas como a comida é sempre o primeiro assunto que toca meu coração, não tenho como fugir do óbvio: selecionar, pela lembrança e pelo carinho, as comidinhas que primeiro me vêm à cabeça quando tenho fome nesta cidade enorme. São muitas, claro. E uma lista como esta é sempre injusta. Mas aqui o voto é de memória, sim: a minha. Confira o que eu mais gosto de comer em São Paulo! Continue lendo “Delícias de SP”

Rumo à Normandia – o fim da jornada

Como disse nos posts anteriores, fiz um curso de duas semanas na França, o Hautes Études du Goût. Passei uma semana em Paris e uma semana em Reims, estudando e comendo e bebendo e experimentando um pouquinho dos sabores desse lado do mundo.

No finalzinho da minha primeira semana em Paris, tendo feito já amigos que ficariam por lá, fui questionada: por que você não fica por aqui na sua última semana de férias? Tentador.

Estava num café, em Paris, quando decidi: ficaria mais uma semana na França. A partir daí, os caminhos se determinaram sozinhos: iríamos de carro para a Normandia. Fosse como fosse.

Esta é a minha cara de pânico, no momento exato em que pensei: vou ficar.

Café em Paris

E, olha, foi a melhor coisa que fiz.

Passamos uma semana em Paris, depois uma semana em Reims. Participamos de jantares incríveis, fizemos uma prova difícil e voltamos para Paris, em meio à greve e tudo o que foi visto pelo noticiário.

Em Paris, passamos duas noites no precário hotel Formule 1 e alugamos um carro. Nosso destino: Normandia. E o que mais aparecesse pela frente.

Partimos, sem rumo definido, ao coração da Normandia, quase chegando na Bretanha. Alugamos um carro bacana, com GPS, e viajamos numa segunda-feira fria.

Nosso primeiro destino: Étretat. Uma cidadezinha minúscula, em que o comércio parava de funcionar por volta das oito da noite. Chegamos, encontramos um hotelzinho simpático (a dona era jornalista – e de gastronomia!! – como pode?) e ficamos por lá. Saímos em busca de diversão. Vimos um morro enorme com uma igrejinha de pedra no topo. Para nos aquecer para a caminhada, paramos num café e tomamos nossa primeira sidra de muitas – um sabor que nunca esquecerei: defumada, macia, doce, como só as sidras verdadeiras podem ser.

Normandie

Caminhamos por aquela cidadezinha meio sem rumo, bebemos mais sidra, subimos a pé até o morro em que a igrejinha – fechada, uma pena – parecia cuidar da cidade toda. Eu poderia me casar lá, se pudesse casar de novo. Sim, eu poderia.

Normandie

Andamos, bebemos sidra, comemos moules et frites deliciosas, fomos enxotados do restaurante,paramos num pub, jantamos em outro restaurante (todos olhavam para nossa amiga coreana, como se ela fosse um E.T. Estranhíssimo!), voltamos ao pub e terminamos a noite bebendo Guinness e rindo pela vida.

Esta foi a primeira sidra que antecedeu diversas outras. Cheers, mates!

Normandie

Mais sidra:

Normandie

De manhã, no dia seguinte, partimos em direção a Caen. Passamos por cidadezinhas minúsculas que giram em torno do mar, comemos ostras deliciosas e muito frescas, bebemos mais sidra e chegamos a Caen. Linda cidade, cheia de castelos e igrejas e ruínas e… pubs! Como pode? Mais Guinness noite adentro.

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No dia seguinte, tomamos café e partimos em direção ao Mont Saint Michel. Compramos um monte de comidinhas deliciosas estrada afora – baguetes, camembert de leite cru, presunto cru, saucisson, uvas, sidras, etc – e decidimos fazer um piquenique. Bem francês. No meio do caminho, paramos em Omaha Beach para visitar um cemitério americano da Segunda Guerra. Triste de gelar os ossos…

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Um campo de cruzes, lembrando o horror da Segunda Guerra:

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Silêncio e respeito. Não é pedir muito:

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Perto dali, com toda aquela comida no porta-malas, e chuva fina lá fora, paramos nos arredores de Omaha Beach e acampamos ali mesmo, dentro do carro. Foi uma festa! Piquenique na chuva, em boa companhia, com muita conversa boa e risadas… Quem precisa de mais?

Só as garotas dentro do carro. Os meninos, gentlemen, ficaram na chuva.

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As comidinhas fantásticas do nosso piquenique in the rain:

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De sobremesa, macarons, tortinha de framboesa e mille-feuille (ou “mifuá”, como diria o norte-americano):

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Depois da comilança, pegamos a estrada novamente e seguimos em direção ao Mont Saint Michel.

Te digo: o que é aquilo? Um castelo enorme, uma fortaleza, no meio de uma praia em que não existe nada além das marés e da areia e da água.

Normandie

Chegamos ao nosso destino e, para nossa surpresa, o lugar era lindo, mas era uma “tourist trap”. Muita gente, muitas lojinhas de artesanato e souvenirs, muita coisa junta. Mas era encantador, apesar de tudo isso.

Pegamos nosso carrinho alugado e tomamos nosso rumo, em direção a Paris. No meio, uma cidadezinha chamada Cancale, em que os barcos ficavam ancorados na praia, sem água, até a maré voltar… Uma coisa doida. Ficamos num hotelzinho, comemos um prato gigantesco de frutos do mar e fechamos o dia num pub local. Era a nossa última noite na estrada antes de voltarmos a Paris.

Normandie

Tomamos calvados – a aguardente típica daquela região, feita de maçã – e uma cerveja azeda, esquisita. Ganhamos uns shots de uma bebida horrorosa, que nem sei dizer o que é.

Normandie

No dia seguinte, pegamos  a estrada de volta a Paris. Chegando lá, encontramos um hotel para ficar e jantamos no Café Constant, depois de enfrentarmos uma espera longa. Estava cansada, com dor de garganta, mas mesmo assim aproveitei.

Em meu último dia em Paris, nesta temporada, aproveitei para comprar algumas lembrancinhas e almoçar no Le Bélisaire, onde o chef era nosso amigo. Comi bochecha de boi, bebi vinho e andei sem rumo pela cidade-luz. Parei em alguns cafés, tomei espressos duplos e falei da vida. Flanei, como diriam os escritores antigos.

Le Bélisaire:

Paris

Depois, peguei minhas malas pesadas e segui, de trem, até o aeroporto Charles de Gaule. Eu tinha de voltar.

E voltei. E estou aqui.

Buffalo grill

Buffalo Grill, Reims

Então estávamos em Reims, uma cidadezinha petitica sem nada para fazer além de olhar a paisagem. Nessa altura, um grupo de amigos já havia se formado: eu, João (brasileiro), Yoora (coreana), Soon (malasiano), Selina (chinesa-australiana), Thania (mexicana) e Max (americano).

Ficamos hospedados numa espécie de castelo antigo, em que os quartos tinham nomes de fruta (o meu era kumquat, aquela laranjinha japonesa mínima que a gente come com casca).

Pois bem. Numa das raras noites em que não tínhamos jantar nem nada agendado, Max, talvez com saudade de casa, quis jantar no… Buffalo Grill. Um restaurante estilo tex-mex, perto do hotel, que servia comida norte-americana. Hambúrgueres, costela, coisinhas fritas, coca-cola, essas coisas. Com direito a tótens e figuras indígenas na entrada!

No ônibus, a caminho do hotel, surgiu a ideia: vamos jantar no Buffalo Grill? VAMOS!

Então fomos. Pedimos costelinhas de porco, steaks e outras coisas “tipicamente norte-americanas”. Pois sim.

Em determinado momento, Max, o engraçado, mentiu para a garçonete: “veja, dear, nosso amigo Andres está fazendo aniversário HOJE.”

E não é que ganhamos um bolo com velinhas de presente? Sim! Em Reims, minha gente, em Reims. God save America.

Costelinhas e “french fries”. Ou seriam “freedom fries”? I don’t care:

Buffalo Grill, Reims

O menu do Buffalo Grill. And beer, of course:

Buffalo Grill, Reims

Yoora e Andres:

Buffalo Grill, Reims

Uma das raras fotos em que apareço:

Buffalo Grill, Reims

Max não podia se conter, de tanta felicidade:

Buffalo Grill, Reims

João, o chef brasileiro, e Selina, ainda assombrada pelo fantasma de Dom Pérignon:

Buffalo Grill, Reims

Andres e seu “bolo de aniversário”. Yeah, right:

Buffalo Grill, Reims

E a turma toda quase reunida. Adoro esta foto:

Buffalo Grill, Reims

O fantasma de Dom Pérignon

A casa de Dom Pérignon

É claro que, convivendo diariamente com um grupo de quase 20 pessoas, natural a gente fazer amizade mais próxima com alguns. Uma das minhas favoritas era a Selina, chinesa-australiana, quase da minha idade, simpática e divertidíssima. Foi graças a ela que comprei meus primeiros óculos de sol Chanel, um sonho.

Fato é que, a caminho de Reims, paramos na cripta de Dom Pérignon. Aquele mesmo, do champagne famosérrimo, que disse que tomar champanhe era como “beber estrelas”. Ele estava certo.

Estávamos a caminho de nossa segunda semana de curso, em Reims, quando decidimos fotografar a tumba de Dom Pérignon. Selina, que tem um olhar incrível para cenas e fotos, clicou a tumba do dito cujo na mesma hora que eu. E ficou mais uns instantes por lá, admirando, enquanto eu saía do local fazendo alguma piada boba com meu amigo Max.

Dias depois, num jantar que tivemos, harmonizando champanhe e pratos deliciosos, eis que nosso amigo malasiano, Soon, chega até mim e diz, com voz grave: preciso te contar uma coisa muito importante, mas só posso contar no sábado. Como assim, Soon!!!!! Insisti até que ele me contasse o “segredo”: disse ele que Selina havia fotografado o FANTASMA de Dom Pérignon. Repeti: “Como assim, Sooooooooon?!?”.

Falei com Selina, claro, e ela me mostrou a foto: realmente, tinha um, digamos, rosto, na foto que ela tirara com seu Iphone. Mas… Eu tirara a mesma foto, e nada, nada mesmo, tinha aparecido.

Como diria dona Milu: mistééééééério!

Sei que ficamos a noite inteira conversando e rindo e brincando e falando do fantasma de Dom Pérignon. E incomodamos os vizinhos, que nos ouviam nos quartos acima de nós… Por causa de Selina e Dom Pérignon (e de alguns goles de cerveja e Jack Daniels), ficamos conhecidos como “trouble makers”. Como diz meu amigo João, brasileiro “sempre causa”. É verdade: causamos.

Mas olha… Se era um fantasma mesmo, não sei. Sei que, se for, ele está rindo conosco, feliz por fazer parte desta loucura de duas semanas que foi este curso.

A igrejinha onde Dom Pérignon descansa em paz:

A igreja

Uma vela em homenagem ao nosso querido personagem:

Velas

E a minha foto da tumba… Vejam, não há fantasma algum! Acho que o lance era com a Selina….

Dom Pérignon

Mercado noturno de Rungis

Rungis Market

Como disse nos posts anteriores, numa das noites do curso que fiz na França este ano (Hautes Études du Goût), tivemos uma visita fantástica ao mercado noturno de Rungis.

É como um Ceagesp gigante, bem organizado, limpo, dividido entre peixes, carnes, caça, frutas, verduras e legumes (cogumelos também), queijos e flores.

Ficamos acordados a noite inteira, tomando vinho e champanhe num bar à vin pertinho do hotel, até dar o horário de encontro: 2 horas da manhã, nosso ônibus partiria de Paris em direção ao mercado. E lá fomos nós.

Estava um FRIO de rachar. Fui com casaco, calça, cachecol, meias de lã e sapatos simples… E meus pés quase congelaram, acreditem. Mesmo andando e falando e fotografando e tudo e tal, chegou uma hora em que mal conseguia sentir meus dedões dos pés! Ficava batendo os pés, pulando, saracoteando, mas nada adiantava… A sensação era de entrar em uma geladeira ou freezer, literalmente.

Mas, olha, vou dizer: que experiência! Nunca vi um mercado tão grande e tão lindamente organizado. Todos os produtos, fresquíssimos, chegam de várias partes da França e do mundo para abastecer Paris e outras cidades. A gente não podia comprar os produtos, apenas ver e fotografar, diante do olhar meio enfastiado, meio divertido, dos vendedores. Quando era por volta das 5 horas da manhã, as vendas estavam a todo vapor, e os comerciantes ficavam meio irritados com nós, alunos, xeretando tudo. Mas, whatever, né?

Xeretamos mesmo! E foi incrível.

Tomamos café da manhã no mercado, por volta das 7 e pouco da manhã. Tonta de sono, não podia ouvir sequer uma palavra que o organizador dizia, e ficava tentando apaziguar meu amigo Max, que queria atirar uma faca em três ou quatro da turma que faziam perguntas bobas àquela hora da madrugada! hahahahah! “Calm down, Max! Behave!” E assim foi.

Por conta da greve generalizada na França, estava um trânsito terrível na volta para Paris, de modo que chegamos ao hotel por volta das… 10 da manhã! Exaustos, com frio, mas absolutamente felizes por ter visto de pertinho alguns dos produtos mais deliciosos da face da Terra.

Vejam algumas fotos do incrível mercado… De chorar, de bom:

A seção de peixes:

Rungis Market

Atuns gigantescos, dava até dó:

Rungis Market

Vieiras fresquíssimas:

Rungis Market

Peixes que nunca vi na vida:

Rungis Market

Coelhos (seriam lebres?) com pelo e tudo… Para provar que não são gatos:

Rungis Market

Pombos com suas penas… Provei a carne, era deliciosa:

Rungis Market

Patos, com cabeça junto. Um pouco… estranho:

Rungis Market

Uma visão do mercado. Tudo organizadíssimo, em plena madrugada:

Rungis Market

E as carnes, né? Impressionantes… Mas não tinham cheiro algum:

Rungis Market

Foie gras, embalado a vácuo:

Rungis Market

Na seção de legumes, abobrinhas de todos os tipos:

Rungis Market

E abóboras, tão pequenas e alaranjadas, muito diferentes das que vemos por aqui:

Rungis Market

Nozes, recém colhidas, quase macias, de tão novas:

Rungis Market

Na parte das frutas, abacaxizinhos mínimos e amarelos:

Rungis Market

Morangos absolutamente perfumados:

Rungis Market

Framboesas delicadas, e onipresentes:

Rungis Market

E… groselhas. De verdade!

Rungis Market

E para terminar, os queijos. Alguns davam medo, de tanto mofo:

Rungis Market

Outros eram lindos… Valeram a visita:

Rungis Market

Revendo as fotos, dá uma saudade apertada de tudo. Afe.

HEG: olha a gente aí

Poucos dias depois de voltar de Paris/Reims/Normandia, um dos amigos queridos do curso encontrou um vídeo do jantar molecular do qual participamos, no Cordon Bleu. Tema: cozinha molecular.

Pratos com chocolate que não era chocolate, polifenóis em forma de gelatina, “champanhe” feito de vinho branco e umas pedrinhas esquisitas, que achamos muito parecidas com pop rocks – aquelas balinhas que estouram na boca. Divertidíssimo!

Para quem quiser ver, o vídeo é este aqui:

Se você olhar bem, eu apareço num pedacinho, recebendo meu diploma. Hahaha! 😉

Hautes Études du Goût – meu curso francês

Sparkling Eiffel Tower

Um monte de gente tem me perguntado: afinal, o que é que a senhora foi fazer na França, além de se divertir?

Pois bem, eu fui estudar. Com um prazer absurdo, é claro, mas eu fui es-tu-dar.

Explico. Desde 2008, quando concluí o Curso Objetivo Chef, na Wilma Kovesi, eu queria fazer este curso. Foram quase dois anos de empenho, mas consegui.

O curso se chama Hautes Études du Goût (em uma tradição literal, “altos estudos do gosto”), e é oferecido em parceria entre a tradicional escola de culinária francesa Le Cordon Bleu e a Universidade de Reims. Na França, claro.

Basicamente, o curso se divide em duas semanas. Na primeira, em Paris, frequentamos a sala de aula do Cordon Bleu, e – aqui preciso dizer – foi uma emoção imensa. Mas, assim, IMENSA mesmo, andar por aqueles corredores cheirando a comida, vendo os alunos vestidos com seus dólmans respingados de molho, e os professores ali, ensinando as técnicas mais incríveis de cozinha, como era feito desde a época de Julia Child, desde antes. Lágrimas nos olhos no primeiro e no último dia. E muitas risadas no meio…

Le Cordon Bleu

Nesta primeira semana, tive aula com gente incrível, como Hervé This – que esteve recentemente no Brasil – Claude Fischler e outros grandes nomes da história, sociologia, antropologia, psicologia e ciência da gastronomia e da alimentação. A programação era intensa: de manhã, acordar e ir para a aula. Depois, almoçar com a turma no restaurante determinado pelo curso (vinho todo dia, bien sûr) e, de tarde, mais aula. À noite tínhamos jantares pedagógicos – como um jantar medieval ou o jantar molecular criado por Hervé This, ou jantares simples em restaurantes também determinados pelo curso. Raros momentos sem nada pra fazer.

Abaixo, monsieur Hervé This:

Paris

Sibel Pinto, ex-aluna Cordon Bleu, preparou um jantar com acepipes turcos para nosso primeiro jantar do curso:

Paris

E o jantar foi harmonizado com cervejas:

Paris

Foi durante esta semana em Paris que conhecemos o mercado noturno de Rungis, uma madrugada inteira, gelada, visitando setores de carnes, verduras, legumes, queijos – só esta visita já merece um post. Falarei sobre ela outro dia.

Na segunda semana, seguimos a caminho de Reims, na região de Champagne, para mais aulas teóricas, almoços simpáticos e jantares pedagógicos quase todos os dias. Provamos foie gras, cogumelos da estação (e eles estavam no auge, posso dizer), além de vinhos e champanhes incríveis.

Quase não tínhamos tempo livre, mas usamos cada micro segundo para aproveitar a França. E olha, vou dizer: aproveitamos.

A turma era variada: orientais, norte-americanos, sul-americanos, canadenses, australianos, franceses. Claro que meu grupo mais próximo era composto, basicamente, pelos orientais e latinos, com exceção de um americano, que afeiçoou-se aos terceiro-mundistas e conosco ficou. Todos os dias, depois das aulas, nos reuníamos para beber alguma coisa e conversar no nosso inglês meio esquisito, mas que funcionou perfeitamente.

Depois das duas semanas intensas de curso, comilança, risos e diversão, decidi ficar mais uma semana na França para partir com alguns dos novos amigos para a Normandia. Mas esta história fica para outro dia.

Esta foto abaixo, assim como a que abre este post, foram tiradas no terraço do sétimo andar do Novotel, em Paris, onde ficamos hospedados durante nossa estadia parisiense. Da varanda, podíamos avistar a torre enquanto tomávamos um drinque juntos: vinhos, cervejas e Jack & Coke, que tornou-se a bebida oficial do grupo. Sim, estávamos na França. Mas, sim, tomamos uísque americano todo dia. Amigos, né?

Eiffel Tower

Back home

Paris

Aqui estou, de volta a São Paulo.

Vou compartilhar com vocês algumas fotinhos destas três semanas inesquecíveis que passei na França. Valeu a pena todo o esforço para tentar aprender um pouquinho a língua francesa, tooodo o dinheirinho gasto em curso, hospedagem, alimentação, presentinhos… Viajar é uma das melhores coisas da vida, asseguro.

A primeira semana passei em Paris, fazendo o curso de Hautes Études do Goût, promovido pela Universidade de Reims em parceria com o Le Cordon Bleu. Cheguei sábado cedo na cidade, e como só poderia entrar no meu quarto do hotel a partir das 12h, fiquei passeando pelo bairro – Montparnasse – antes de entrar.

Comprei vinho, queijo de cabra, batatinhas chips com mostarda, pãezinhos e vinho, claro. Além disso, comprei também uma caixinha de açúcares em cubinhos Saint Louis, em formatos variados. E aqui cabe um adendo: eu simplesmente adoooro açúcar em cubinhos. Viciada, mesmo.

Paris

No dia seguinte, domingão, acordei cedo e fui até à Notre Dame. Assisti a uma missa internacional, catedral lotada de gente, e fui passear pelos arredores. As ilhas do centro da cidade também estavam lotadas e, apesar de ser domingo, havia vários restaurantes simpáticos abertos. Escolhi um deles e comi meu primeiro foie gras da estadia. Com vinho, claro. Aliás, uma das melhores coisas de estar na França é tomar uma tacinha de vinho, sem culpa alguma, no almoço e no jantar. Yay!

Paris

Paris

Paris

Saindo do restaurante, fui passear sem rumo, comprei um chapeuzinho de lã para mim e voltei para o hotel, pois nesta noite conheceria meus colegas de curso.

Tomei banho, me arrumei e segui para o terraço do hotel, de onde tínhamos uma vista linda e privilegiada da Torre Eiffel. Cheguei cedo e logo conheci João e Max, que acabaram se provando companhias incríveis nesta viagem.

Tomamos champanhe, nos apresentamos e fiquei conhecendo meus colegas: na turma tinha franceses, americanos, canadenses, australianos, coreanos, colombianos, mexicanos, chineses e até um malasiano, o Soon, absurdamente simpático com todo mundo. Mantendo os estereótipos firmes e fortes, acabei ficando mais próxima do João, brasileiro, e dos orientais: Yoora, coreana, Soon, malasiano, Selina, australiana de família chinesa, Andrés, colombiano. Max foi o único americano a quebrar o estereótipo, fazendo amizade com a latinada em peso e os desajustados em geral. Fizemos tanta bagunça juntos que acabamos sendo apelidados de “troublemakers”.

No geral, a turma tinha uma média de idade um pouco maior do que a minha, mas nos demos muito bem. E a barreira do idioma, né? Estava morrendo de medo de não conseguir me comunicar em inglês ou francês com a galera, mas deu tudo certo. Proud of myself! 🙂

Paris

E agora, depois de três semanas convivendo quase todos os dias com os mesmos amigos, bate aquela saudade apertada de rever todo mundo, dar um abraço, viver bons momentos juntos de novo. E nem preciso dizer que estou com uma espécie de “jet leg” linguístico: tento falar em português, sai em inglês, e vice-versa!

Coisas que só a vida pode fazer por você…. Valeu, papai do céu! 🙂

<a href=”http://www.flickr.com/photos/guloseima/5133124447/” title=”Paris por guloseima, no Flickr”><img src=”http://farm5.static.flickr.com/4106/5133124447_e55d7b428c.jpg” width=”375″ height=”500″ alt=”Paris” /></a>

Um pouquinho de Londres

Trabalhar com gastronomia, além de ser um prazer muito grande para mim, também me oferece algumas oportunidades bacanas vez em quando. Em junho deste ano, fui convidada para ir a Londres, na Inglaterra, para cobrir o festival Taste of London, para a revista Menu, onde trabalho como editora-assistente. O relato completo da minha visita está na Menu 141 (que está liiiinda, por sinal), e você pode ler minha matéria sobre Londres clicando aqui.

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Posso dizer que me surpreendi com o que vi na cidade, especialmente na gastronomia: alguns chefs estão redescobrindo a comida britânica tradicional, e mandando muitíssimo bem! Vejam lá e me digam o que acharam (se tiverem alguma dificuldade, me avisem que posto o texto por aqui).

Foram apenas 5 dias na cidade, mas gostei de tudo. Para começar, Londres é vibrante. MUITO vibrante. Tem coisa para fazer todo dia, toda hora, as ruas são lotadas de pessoas de todos os cantos do mundo. Tem bairro chinês, tem bairro gay, tem inúmeros restaurantes indianos, paquistaneses, japoneses, chineses, italianos, franceses… Tem pubs para provar a tradicional cozinha inglesa, como o onipresente fish and chips ou pratos variados com cordeiro, batatas, salsichas, linguiças, cogumelos… E as lojinhas e mercadinhos são imperdíveis para quem ama comer e beber, como eu.

É claro que, como autora de um livro sobre café da manhã, não podia deixar de experimentar os desjejuns londrinos! hehehehe! Do mais tradicional, com tomate assado, cogumelos, linguiças e ovos mexidos, até o delicioso café da manhã do hotel The Westbury, onde me hospedaram nos primeiros dias de viagem. O restaurante deles, o Artisan, é um primor, e o café da manhã não podia ser diferente: frutas frescas, sucos de frutas (tomei de grapefruit todos os dias, que amo muito), salmão selvagem defumado, pães quentinhos, torradas, geleias de Essex em potinhos, manteiga britânica de primeira qualidade, embrulhada individualmente… Tudo um luxo supremo. Gostei do que vi e do que experimentei. Nada mal para quem achava que a comida inglesa ia ser meia-boca… 😉

Uma coisa curiosa: os ingleses usam muito açúcar em cubos para adoçar suas bebidas. São cubos grandes, de açúcar mascavo ou branco, duros de mastigar, mas bons de sabor:

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Como disse, foram poucos dias para conhecer tudo, e muitos compromissos profissionais. Mas entre um compromisso e outro, eu visitava tudo o que estava ao meu alcance, principalmente os mercados e suas seções de comida. Nem preciso dizer que fiquei enlouquecida com a variedade de produtos, e trouxe para casa muito menos do que gostaria…. Hehehe!

Mesmo assim, consegui trazer biscoitos (acondicionados em latas lindas), temperos variados (como ras el hanout, bagas de junípero e folhas de lima kaffir), sal marinho, chocolates, geleia de grapefruit, biscoitos tipo shortbread, açúcares em formatos inusitados e, para meu marido, jujubas de milhares de sabores diferentes.

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No último dia, o verão parecia ter chegado com toda a força em Londres. Como teria o dia livre, tirei fotos para a revista e aproveitei para dar uma passadinha na Harrods, famosa loja de departamentos local. Entre os inúmeros corners de estilistas famosos, perfumes incríveis e maquiagens mil, me deparei com a Harrods Food e quase chorei de emoção. Nem na Galeria Lafayette Gourmet vi tanta variedade de comida junta! Eram biscoitos, queijos, presuntos, frutos do mar, frios, enlatados, chás, chocolates… Fora os restaurantes incríveis, as comidas prontas, os sanduíches… Fiquei enlouquecida com tanta coisa boa, mas estava meio lotado e eu precisava correr para o aeroporto.

Então, almocei na rua, finalizando minha breve passagem por Londres num… bistrô! 😀 Fui muito bem atendida pela dona, francesa, que está em Londres há um tempão e já adaptou um pouquinho da comida de seu país de origem para o gosto britânico. Mas sempre com um toquezinho francês, bien sûr. Comi uma espécie de brusqueta de entrada, com hambúrguer e batata frita de prato principal. Tudo acompanhado por uma taça de vinho tinto, claro.

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Minha sobremesa foi crème brûlée com raspberries (framboesas vermelhinhas e macias).

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Raspberries, aliás, estavam em plena temporada por lá. Numa das minhas idas aos mercadinhos locais, comprei raspberries fresquinhas, um pedaço de queijo feita e panquecas prontas para uma refeição leve e deliciosa. Era jogo do Brasil na Copa, um domingo, e optei por assistir sozinha, no conforto do hotelzinho em que me hospedei depois, com meu banquete improvisado. E foi bom demais! 🙂

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Foi corrido, mas valeu a viagem. Agora quero voltar para Londres e conhecer outros restaurantes, ficar mais um pouco na cidade, ver os museus, as livrarias, a vida cultural… Ano que vem, quem sabe? 😉

Abaixo, um pouquinho de Londres no verão: O Big Ben e o rio Tâmisa, a London Eye…

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