Sem água

Água: economizar é para já. Foto: Luciana Mastrorosa/ Guloseima

A sombra de um futuro complicado tem me tirado o fôlego já há alguns meses. Acredito que todos nós, moradores de São Paulo, nos fazemos diariamente a fatídica pergunta: O que vai acontecer se a água secar de vez?

Tenho matutado muito sobre isso e é inevitável lembrar de M.F.K. Fischer em seu (ótimo) livro “Como cozinhar um lobo” (Ed. Companhia das Letras). A autora escreveu essa obra por conta da guerra, mas continua sendo um tratado bastante atual de como sobreviver em tempos de turbulência. Veja se não tem tudo a ver com o que enfrentamos hoje:

“Apesar de toda a conversa e todo o estudo sobre nossos próximos anos, e todas as ponderações sobre o que eles reservam para nossos filhos, (…) parece claro para nós que muitas coisas estão erradas atualmente e podem ser, devem ser mudadas. Nossa crença é cheia de ‘furos’. Faltam peças ao nosso jogo de armar. Uma das falácias mais óbvias refere-se ao que devemos comer. Os homens sábios sabem desde sempre que uma nação vive do que seu corpo assimila, bem como do que sua mente adquire como conhecimento. Então, quando a abominável necessidade da máquina da guerra engole aço, algodão e humanidade, nosso próprio mecanismo secreto, pessoal e privado deve ser mais forte, em benefício do conforto egoísta, assim como para o bem dos ideais nos quais acreditamos que acreditamos.” (p. 17)

É claro que sabemos de quem é a “culpa”, no sentido geral da crise da água. Mas é necessário ponderar que também nós, aqui da outra ponta da cadeia, longe das tomadas de decisões, também temos nossa parcela de culpa e, principalmente, de responsabilidade. A água não é um recurso infinito, como custamos a acreditar. E, em sua finitude, precisa ser usada com responsabilidade, carinho e cuidado, como tudo, aliás, deveria ser. Precisamos pensar como um todo: um ato aqui gera uma reação acolá, e, assim, sucessivamente. Dá para ter água no sudeste desmatando a Amazônia? Não. Dá para ter água em qualquer lugar do Brasil transformando tudo em pasto, plantação de soja transgênica, milho e cana para virar álcool? Sinto muito, a única resposta possível é NÃO. Não, mesmo.

A gente pode fazer a nossa parte, porém, no dia a dia, nas pequenas tomadas de decisão. A primeira delas, e mais óbvia, é economizar recursos – leia-se água. Mas não basta fechar as torneiras, tomar banhos curtos, ser comedido em seu uso. É preciso pensar em toda a cadeia da água, nas coisas que compramos e que usam litros e litros de água boa para serem feitos, nas nossas escolhas alimentares. Comer mais em casa, mais comida de verdade, menos industrializados. Desperdiçar menos comida. Reutilizar a água de cozimento de legumes e verduras para fazer outros pratos.

Mas, principalmente, é preciso repensar o que se come e em quais quantidades. E questionar as necessidades que criamos em nome de uma vida “saudável” que, muitas vezes, nem é tão saudável assim. Ou você acha mesmo que é necessário tomar suco de soja transgênica, entupido de conservantes, adoçantes artificiais, com sabor que nem de longe lembra algo vivo? Será que a gente precisa mesmo viver à base de industrializados o tempo todo? Quantos litros de água são necessários para produzir essa soja que você consome apenas por julgar mais “saudável” (e não é) ou por preguiça ou por praticidade?

Carne vermelha é outro exemplo. Eu adoro, sou uma onívora no sentido mais estrito da palavra. Mas sei que é impossível consumir carne todos os dias, pois isso tem um impacto – não apenas no meu bolso, mas no “bolso” do planeta.

Embalagens, já pensou em quantas embalagens podemos economizar comprando itens a granel? Ou reaproveitando vidros para guardar ervas, especiarias, azeitonas? Todos os dias podemos fazer alguma coisa, a escolha é nossa.

Enfim.

Por aqui, já estabelecemos algumas medidas práticas para economizar água. O que pode ser reutilizado – a famosa água de reuso, como a do banho ou da máquina de lavar roupa – vai para um galão e terá como destino lavar a área de serviço, o banheiro, usar como descarga.

A água para cozinhar também está sendo utilizada de maneira mais inteligente. Prefiro usar ingredientes que incorporem a água em seu cozimento: por exemplo, arroz, feijão. Mas, caso cozinho macarrão, tento reutilizar essa água para produzir um novo alimento, como uma sopa. O mesmo vale para o cozimento de legumes no vapor, etc. Tudo vira caldo.

Na dúvida, se não houver água, frite na gordura. Em vez de ovo cozido, ovo frito ou mexido. Não é necessário afogar o alimento em gordura; no mais das vezes, é necessária uma pequena quantidade para dar conta da cocção. E, claro, consuma alimentos crus sempre que possível – a água de sua higienização vira água de reuso, portanto, não se perde.

E, assim, vamos revendo, pouco a pouco, nossos hábitos perdulários de consumo. Eu, de minha parte, adoraria ter uma casa com quintal, deixar os jardins com terra absorverem a água da chuva, colocar uma cisterna para acumular as preciosas gotas… Mas me viro com minhas pequenas conquistas diárias de apartamento, reciclando (e, principalmente, diminuindo) meu lixo, reaproveitando potes, cozinhando em casa sempre que possível, aproveitando tudo do ingrediente, dos ossos às raízes. De gota em gota, vamos construindo um futuro melhor.

Guloseima é um blog de gastronomia, receitas e viagens mantido no ar desde abril de 2006 pela jornalista Luciana Mastrorosa, especializada em gastronomia e culinária.

Luciana é autora do livro Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da manhã. Trabalhou como editora nas principais publicações de gastronomia no país. Contribui atualmente com a revista Casa e Comida e com o site UOL Comidas e Bebidas.

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