Cultivando ervas

ervinhas

Moro num apartamento pequeno, sem varanda. Mas, aprecio enormemente o uso de ervas frescas na cozinha – e acho um absurdo o preço que se cobra por um macinho murcho de ervas no mercado. Aquele manjericão caído, o alecrim que já passou do tempo… A única exceção é o louro (Laurus nobilis), que aceito comprar em maço grande (orgânico, de preferência), para deixar secando pendurado na minha cozinha minúscula. Vou aproveitando as folhas, uma a uma, até acabar. Os galhos também são perfumados, e servem como um espeto para assar filés macios de peixe. A madeira acrescenta um sabor delicioso ao pescado, e você aproveita tudo do seu maço de louro, nada de jogar coisas maravilhosas no lixo! Louro, para mim, é a erva clássica para se cozinhar feijão, mas não dispenso uma folhinha em molhos, caldos e sopas.

Hoje tenho alguns vasinhos de ervas distribuídos do jeito que dá, perto das janelas deste apartamento em que vivo. As plantas se esticam em busca de um raio a mais de sol, de modo que tenho conseguido, com algum sucesso, cultivar alecrim, sálvia, erva-cidreira e boldo.

Meu vasinho antigo de sálvia se foi, sacrificado pela mudança louca de temperatura desta São Paulo cada vez mais difícil de lidar, e por algum tipo de bichinho não-identificado. Ganhei agora um novo vaso, de sálvia folhuda e bem verde, esperando que tenha vida longa.

Tenho para mim que a grande diferença entre alguém que se vira na cozinha e um cozinheiro de verdade é o uso, com sabedoria e experiência, de ervas frescas, especiarias, temperos e sal. Uma cozinha que se limita a alho, cebola e cheiro-verde é gostosa. Uma cozinha que vai além disso e arrisca, se bem executada, é maravilhosa!

Por isso, ter sempre um vasinho de ervas à mão é uma dádiva. É aquele lembrete de como a natureza é perfeita, e de como a gente tem que cuidar, acarinhar, proteger, para preservar este equilíbrio mágico.

Se você nunca teve plantinha alguma, recomendo começar pelo alecrim. É uma erva robusta, não precisa de muitos cuidados para estar sempre bela. O meu está com os galhinhos retorcidos, como de árvore antiga, mas é criança: tem lá os seus quatro anos de idade, por aí. Não cresce muito porque é criança de apartamento… Pouco sol, algum vento, apenas uma noção da liberdade do ar livre. Mas é um companheiro e tanto, e já perfumou linguiças, cuscuz marroquino, saladas, carnes de cordeiro e muitas, muitas batatas. Batatas assadas com alho e alecrim estão entre os maiores espetáculos da terra!

O alecrim (Rosmarinus officinalis) tem seu nome derivado de “rosmarinus”, a “rosa do mar”. É uma erva de origem mediterrânea, segundo o “Pequeno Dicionário da Gula” (editora Record), de Márcia Algranti. É um dos grandes temperos da cozinha italiana, casando classicamente com carnes como a de cordeiro e a vitela. Mas seu perfume intenso entra até no pão e na foccacia, precisando apenas de algumas folhas frescas, sal grosso e azeite para aromatizar esse pão típico da Itália. Nunca provou? Aprenda uma receita de focaccia incrível!

Além de tudo, considero o alecrim uma erva que traz alegria. Seu aroma limpo e fresco imediatamente nos transporta para os prazeres simples do campo. E, dizem, afasta a inveja e o mau-olhado. Só benefícios.

BATATAS ASSADAS COM ALHO E ALECRIM
2 porções

4 batatas grandes ou 6 pequenas
1 ramo de alecrim fresco
6 dentes de alho
Sal grosso e pimenta-do-reino a gosto
Azeite de oliva quanto baste

Descasque as batatas e corte-as em palitos grossos. Regue uma forma grande com 1 fio de azeite e espalhe-o bem. Coloque as batatas e tempere-as com 1 generoso fio de azeite, sal grosso, pimenta-do-reino. Espalhe os dentes de alho, inteiros e com as cascas, entre as fatias de batata. Acrescente o ramo de alecrim, desfolhando-o levemente, apenas para soltar o perfume.
Asse em forno médio/alto por cerca de 30 minutos, mexendo algumas vezes para desgrudar as batatas do fundo da forma. Estão prontas quando ficarem bem douradas e crocantes. Não é necessário cobrir a forma com alumínio, nem acrescentar líquido: as batatas devem assar com o calor seco do forno, formando uma casquinha crocante delicisosa, e permanecendo macias por dentro. Não é necessário exagerar no azeite, senão podem ficar oleosas. E o brinde: os dentes de alho ficam muito macios, podendo ser espremidos no prato e consumidos junto com as batatas.
São o acompanhamento perfeito para diversos tipos de pratos, mas ficam realmente imbatíveis com um filé alto, grelhado ao ponto. Delicioso e muito, muito simples.

Guloseima é um blog de gastronomia, receitas e viagens mantido no ar desde abril de 2006 pela jornalista Luciana Mastrorosa, especializada em gastronomia e culinária.

Luciana é autora do livro Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da manhã. Trabalhou como editora nas principais publicações de gastronomia no país. Contribui atualmente com a revista Casa e Comida e com o site UOL Comidas e Bebidas.

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