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Ao fim de um feriado preguiçoso, fiz esses bolinhos com banana-prata, farinha de amendoim e ameixa seca, para celebrar o Dia das Crianças. Nesta semana em particular, me peguei pensando sobre a infância. A enxurrada de fotos de amigos no Facebook, da época em que eram todos pequeninos, ajudou um bocado nessa reflexão. Posso dizer hoje, sem sombra de dúvida, que fui uma criança meio “velha”. Tudo era sempre profundo, nada raso, sem muita leveza. Muitos amigos comentam “nossa, a infância foi a melhor época da minha vida”. Nunca me senti assim.

Nada de realmente horrível aconteceu, e por isso sou grata. Mas também não foram anos muito felizes. Havia muitas faltas e poucas presenças. Isso me incentivou a cultivar uma fé quase cega no futuro, no porvir. Muito do que sou hoje se deve a essa fé inabalável de que “um dia vai dar certo”. Sempre tive acesso a muitos livros, e atribuo a eles a minha fuga. Eu viajava loucamente com as histórias! Tanto que comecei a ler muito cedo, antes mesmo de ir para a escola. Já que ninguém tinha muita paciência de ler para mim (eu lembro), queria logo aprender a ler para decifrar, sozinha, aqueles mundos todos.

Funcionou, e eu me tornei uma leitora ávida, que me fez escrever meus primeiros livrinhos aos 10 anos. Também aos 10 anos, ganhei meu primeiro exemplar do “Menino Maluquinho”, do Ziraldo, e visitei a minha primeira Bienal do Livro. Nossa, como eu amava aquele livrinho! E a Bienal, então? Foi amor à primeira vista, e por muitos dias eu ficava olhando para aquele monte de adesivos, papeis e marcadores de livros que eu ganhara na feira, sonhando com o dia em que eu mesma me tornaria uma escritora.

Bom, este é um blog de comida, e por que é que eu estou dizendo tudo isso – você pode me perguntar. Explico: porque, da maneira como eu vejo, comida também é memória e também é conforto. De modo que procuro guardar, com carinho, apenas as lembranças mais felizes de uma época que considero difícil. As pizzas de sábado (o cheiro de atum, molho de tomate, mussarela na pia da cozinha, esperando para cobrir os discos de massa); o milho cozido com manteiga e sal dos domingos à tarde, pós-feira e pós-macarronada, pés descalços no longo quintal; uma certa torta gelada, receita da minha tia, que era na verdade o máximo que se poderia chegar a um sorvete caseiro, naqueles tempos pré-Cuisinart.

Minha mãe sempre cozinhou muito bem, mas nunca parou para me ensinar. Suas receitas ficaram na minha memória a partir das observações, das inúmeras vezes em que me sentei à mesa da cozinha para fazer lição – uma mesa de fórmica branca, imitando mármore, depois uma mesa de fórmica marrom, imitando… madeira. Ainda hoje, se fechar os olhos e me concentrar, lembro do aroma do feijão cozinhando, da linguiça frita no final da tarde, da canja de frango com miúdos e muito salsão – a sopa mágica que me alimentou durante os quatro longos anos da Faculdade de Jornalismo, quando eu trabalhava o dia todo e estudava à noite, chegando supertarde em casa. Sobrevivi, foi ok, aqui estou.

Hoje, o Dia das Crianças tem um peso diferente para mim e um sabor todo novo. Finalmente, espero, consegui alguma leveza. É um marco, porque agora eu tenho a minha pequena maravilhosa e me esforço para dar a ela o que acredito que seja o melhor – o melhor que eu posso dar.

Ela tem livros e os adora, curte as minhas comidas (curte jogar no chão, também), faz bagunça na sala, no quarto, entra sem permissão na cozinha minúscula e estreita, ainda perigosa para sua idade. E hoje ela ganhou bolinhos só para ela, com muitas frutas e quase nada de açúcar, para provar um pedacinho e festejar o seu dia.

Feliz Dia das Crianças! Que nossos pequeninos nos ensinem a olhar a vida com amor e leveza – e que a gente nunca se esqueça de que é possível, sim, sonhar alto – e conquistar o que quer que seja.

MUFFINS DE BANANA, AMENDOIM E AMEIXA PRETA
Rendimento: 12 bolinhos

1/2 xícara (chá) de farinha de amendoim ou amêndoas ou avelãs
2 ovos
1/2 xícara (chá) de açúcar (refinado ou mascavo)
115 g de manteiga sem sal (pouco mais de meio tablete)
1/4 xícara (chá) de iogurte ou kefir ou água com suco de ¼ de limão taiti
1 xícara (chá) de farinha de trigo
1 xícara (chá) de farinha de trigo integral
1 pitada de sal
1 colher (chá) de fermento químico em pó
1/2 colher (chá) de bicarbonato de sódio
3 bananas-pratas maduras e amassadas
3/4 de xícara (chá) de ameixa preta picada, sem caroço (ou chocolate meio amargo em gotas)

Preaqueça o forno a 180 ºC e forre uma forma de muffins com forminhas de papel (eu usei duas formas com capacidade para 6 bolinhos cada). Não é necessário untar nem enfarinhar. Bata os ovos e o açúcar na batedeira, até ficar bem claro e espumoso. Junte a manteiga derretida e o iogurte (ou kefir ou água com limão) e bata até ficar homogêneo.

Misture os ingredientes secos numa tigela e vá adicionando-os aos poucos na batedeira. Desligue a batedeira e acrescente a banana amassada, a farinha de amendoim e as ameixas picadas. Misture tudo delicadamente e distribua a massa nas forminhas de muffin. Asse os bolinhos por cerca de 25 a 30 minutos – se estiver na dúvida, enfie um palito no centro de um dos bolinhos; se sair seco, está no ponto.

Retire do forno, deixe esfriar por 5 minutos, transfira para uma grade de bolo e sirva com chá.

Dica: os bolinhos de uma das minhas formas demoraram a corar. Dessa forma, desliguei o forno e coloquei os muffins por 4 minutos no grill. Ficaram um pouco corados demais. Então, fiz uma versão adulta com esses mais queimadinhos: assim que saíram do forno, acrescentei uma colher (chá) de rum em cada um deles, mais uma colher (sobremesa) de mel. Ficaram deliciosos! Mas para bebês maiores e crianças, sugiro a versão básica, muito menos doce. E sem álcool, claro. Para os adultos, café. Para os pequenos, chá ou suco. #happydays, meus amigos. Happy days.

Guloseima é um blog de gastronomia, receitas e viagens mantido no ar desde abril de 2006 pela jornalista Luciana Mastrorosa, especializada em gastronomia e culinária.

Luciana é autora do livro Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da manhã. Trabalhou como editora nas principais publicações de gastronomia no país. Contribui atualmente com a revista Casa e Comida e com o site UOL Comidas e Bebidas.

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