Quem falou em primavera…

“Quem falou em primavera sem ter visto o teu sorriso, falou sem saber o que era.”

Flores na sala de casa, para celebrar a primavera. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima
Flores na sala de casa, para celebrar a primavera. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

A frase que abre este post é da escritora e poeta Cecília Meireles, a quem sempre recorro vez em quando, nos momentos em que sinto falta de um pouco mais de delicadeza na vida.

Cecília foi uma das primeiras autoras “adultas” que li, na longínqua quinta série (quantos anos eu tinha? uns 11, talvez), e foi ela que me apresentou de fato à poesia. O livro era uma daquelas coletâneas que acho que nem existem mais, com diversas poesias de vários autores, e a Cecília era uma delas. Devo ter esse livro até hoje, perdido na bagunça da minha desorganizada (mas muito amada) pequena biblioteca.

Escolhi este trecho escrito pela poeta porque sempre me lembro dele quando a primavera chega assim, com um sol bonito e um céu azulzão, e as amoreiras do bairro ficam carregadas de frutinhas roxas que mancham a calçada.

Pequena que sou, nunca consigo alcançá-las nos galhos mais altos, mas sempre tem alguém com braços mais compridos para pegar um punhado para mim. Este ano, para minha surpresa, é possível encontrar amoras à venda no mercado do bairro, o que me deixou feliz. Mas não tão feliz quanto colher amoras na rua e mastigá-las assim mesmo, sem lavar, direto do galho para a boca. Traquinagens de infância que se revelam, vez por outra, nesta minha casca de mulher madura e balzaquiana.

Se você for um sortudo e tiver uma amoreira à disposição, coma quantas amoras puder, puras ou misturadas ao iogurte, batidas com leite, sobre a granola. Ou prepare geleias e bolos para manter o frescor das frutinhas por mais tempo já que, como se sabe, elas começam a perder o viço no exato momento em que são colhidas. Amoras e berries em geral duram pouco. Mas ficam uma beleza quando combinadas a creme batido com pouco açúcar, bem pouquinho mesmo, e um toque de baunilha, de preferência baunilha de verdade, e não aquelas essências artificiais que encontramos nas prateleiras do supermercado.

É mais caro, mas vale a pena. Meio litro de creme de leite fresco, 2 colheres de sopa de açúcar, meia fava de baunilha raspada (só as sementinhas). Bata tudo à mão ou na batedeira até obter um creme macio e firme, como um chantilly. Coloque uma porção do creme numa tigela bem bonita e cubra com as amoras lavadas e enxugadas levemente, para não ficarem aguadas. E coma em seguida. Pequenos prazeres que só a primavera pode fazer por você…

Termino este post com mais um texto de Cecília em homenagem à primavera, enquanto passo um cafezinho para a tarde preguiçosa de domingo que entra pela janela. É um texto grande, mas vale cada linha. E ainda traz inspiração para começar a semana com mais calma, mais sabor, mais amores e muita, muita, muita suavidade.

Primavera

(Cecília Meireles)

“A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

(Do livro “Cecília Meireles – Obra em Prosa – Volume 1”, da Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1998, pág. 366. Extraído do site Releituras)

Cozinha e letras

Cozinhar é preciso, viver também é preciso. Com intensidade, de preferência, e coração aberto.

Sou tão apaixonada por literatura quanto pela cozinha, mas as paixões se alternam vez por outra, de modos que hoje, por exemplo, cozinho mais do que leio. Mas não esqueço dos meus poetas, nunca. Drummond, Quintana, Sylvia Plath, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Cecília Meireles. Damas e cavalheiros, todos sagrados para mim.

Quando os meus escritores queridos misturam comida e poesia, é a glória. Neruda fez uma “ode à alcachofra” e uma “ode à ameixa”, Isabel Allende escreveu um livro inteiro dedicado à comida afrodisíaca, com belíssimas citações de outros autores. Quintana escreveu um minipoema chamado “Gostosuras”, delicioso até no nome:

“Tua saudade tem gosto de amora.
Teu beijo tem gosto de pitanga.”

Gosto muito também da M.F.K. Fisher, que sempre escreveu lindamente sobre o ato de comer, e de cozinhar. Já citei um trecho do livro dela, Como cozinhar um lobo, aqui. Esse trecho foi retirado do capítulo “Como beber à saúde do lobo”.

Outra parte do texto que adoro é do capítulo “Como seduzir o lobo”. Sempre brinco com minhas amigas que cozinhar é um ato de amor e amizade, mas também pode ser um ato de conquista e sedução. E a regra vale, é claro, para homens e mulheres. Irresistível é a pessoa que sabe cozinhar, e o faz com maestria, só para agradar o seu mais-querido. Para mim, pelo menos, é!

Mas é um fato que cozinhar exige esforço físico e, não raro, o cozinheiro fica todo amarfanhado no processo. Não é qualquer rapaz, ou garota, que consegue enxergar beleza por trás do avental respingado do(a) chef. Por isso adoro este texto da Fisher:

“Façamos o elogio, por bem ou por mal, do lobo em forma humana ou, de outro modo, quem pode, com a cara franca e sem franzir o focinho, cortejar uma cozinheira desgrenhada? Seu focinho, franzido ou liso, não deve ter nem um pouco de juízo para ignorar os cachos dela, saturados de perfumes da frigideira. Sua assim chamada cara, franca ou torta como a de um lobo, não deve ter olhos ou ser caridosa demais, para evitar pelo menos uma olhada cruel para o seu nariz brilhoso e seus lábios mordidos e para os restos gretados da manicure da semana passada. Em outras palavras, qualquer lobo normal seria tolo se avaliasse uma cozinheira desgrenhada por sua aparência, uma vez que o próprio fato de estar desgrenhada deveria provar para ele a natureza devassa dela.”

E o mais divertido: ela ensina às cozinheiras a terem sempre um espelho na cozinha, talvez também um batom e um pó compacto, para dar aquela conferida básica no visual antes de seus convidados entrarem na cozinha. Ainda não segui o truque do espelho, mas achei prático e muito útil. E nunca falta um batonzinho sempre à mão. 😉

Para terminar o post de cozinha e letras, deixo com vocês uma parte do poema “Devorando o mundo”, de James Tipton. Achei o original, em inglês, para quem quiser ler até o fim.

Esta versão aí de baixo foi publicada, traduzida, no livro Afrodite, da Isabel Allende. Acho muito apropriado para o tema de hoje. Cozinhar é também devoção, entrega e amor.

Devorando o mundo

“Nasci com a boca aberta…
entrando neste mundo suculento
de pêssegos e limões e sol maduro
e esta rosada e secreta carne de mulher;
este mundo onde a ceia está
no hálito do deserto sutil
nas espécies do mar distante
que flutuam no sonho tarde da noite.

Nasci em alguma parte entre
o cérebro e a romã
saboreando as texturas deliciosas
de cabelo e mãos e olhos,
nasci do cozido do coração,
do leito infinito, para caminhar
sobre esta terra infinita.

Quero alimentar-te com as flores de gelo
desta janela de inverno,
dos aromas de muitas sopas,
do perfume de velas sagradas
que por esta casa de cedro me persegue.
Quero alimentar-te com a lavanda
que se desprende de certos poemas,
e da canela de maçãs assando,
e do prazer simples que vemos
no céu quando nos apaixonamos.

Quero alimentar-te com a terra acre
onde colhi alhos,
quero alimentar-te de memórias
surgindo dos troncos de álamo
quando os parto
e da fumaça de pinhões
que se junta em torno da casa em uma noite quieta,
e dos crisântemos na porta da cozinha (…)”